Receitas Saudáveis para seu Cão — eBook
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Publicado por Jefferson Peixoto • Página original do produto na Hotmart

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Capítulo 33 - O Dia da Chuva Forte


A chuva caía em cortinas grossas lá fora, tamborilando no telhado da casa com uma intensidade raramente vista. Do peitoril da janela, eu observava as gotas descerem em rios pelo vidro, borrando as luzes da rua. Cada trovão distante fazia meu coração disparar por um instante – era um som que eu nunca conseguiria ignorar completamente. Eu, Sombra, encolhido no canto da sala, sentia um frio que vinha menos da temperatura e mais das lembranças que aquele dia de chuva forte trazia.

Minha dona estava sentada no sofá, com uma xícara de chá entre as mãos, os olhos perdidos na mesma tempestade que me inquietava. Ela me olhou e sorriu de leve, tentando me tranquilizar sem precisar dizer uma palavra. Eu amava o som da voz dela, mas naquele momento, seu silêncio compreensivo dizia tudo. Ainda assim, meu corpo tremia de leve a cada novo rugido do céu. Chuva forte sempre me deixava nervoso – e ela sabia o porquê.

Uma memória vívida voltou à minha mente canina, algo que a chuva pesada inevitavelmente me fazia recordar. Uma cena de muito tempo atrás: eu, ainda filhote, sozinho debaixo de uma marquise estreita em uma rua desconhecida, encharcado e trêmulo. A água gelada escorria do meu pelo preto e espesso, e eu me encolhia contra a parede tentando escapar das rajadas de vento úmido. As pessoas passavam apressadas com guarda-chuvas, algumas mal notando aquele pequeno cachorro abandonado encolhido na sombra. Outras até olhavam com pena, mas seguiam adiante. Meus latidos eram fracos; a fome e o cansaço já haviam levado quase toda minha energia. Eu estava quase desistindo, entregando-me àquele destino solitário e molhado, quando ela apareceu.

Lembro-me de levantar a cabeça ao sentir passos se aproximando devagar. A princípio, vi apenas um par de botas paradas à minha frente, protegidas por um grande guarda-chuva verde-escuro de onde pingava água. Depois, uma voz suave falou: "Oi amiguinho... tudo vai ficar bem agora." Eu não entendia totalmente as palavras, mas o tom era gentil e reconfortante. Enxerguei então seu rosto: olhos castanhos preocupados e um sorriso terno. Minha futura dona. Com cuidado, ela se abaixou, estendendo a mão para que eu a cheirasse. Eu hesitei, mas seu cheiro era de carinho e segurança. Num impulso de esperança, lambi de leve seus dedos, aceitando o contato.

Ela me envolveu numa toalha que tirou da bolsa – até hoje não sei por que carregava uma toalha, mas talvez soubesse que aquele dia reservava um encontro especial. Me pegou no colo com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo. Senti seu abraço quente contra meu corpo trêmulo, e pela primeira vez em muito tempo, relaxei um pouco apesar da chuva fria à nossa volta. Debaixo do guarda-chuva, ela me protegeu das gotas enquanto corríamos para um abrigo melhor. Aquele foi o dia em que ganhei um lar e um nome: Sombra, porque, segundo ela, eu a segui como uma sombrinha preta grudada aos seus passos assim que recuperei as forças.

De volta ao presente, outro trovão ribombou, me arrancando do devaneio. Soltei um ganido baixo sem querer. Imediatamente, ela largou a xícara na mesa e veio até mim, ajoelhando-se ao meu lado. Suas mãos quentes fizeram um cafuné reconfortante atrás das minhas orelhas baixas de apreensão. "Está tudo bem, Sombra," ela disse baixinho. Sua voz era calma e segura. Antigamente, ela também ficava um pouco aflita quando me via assustado desse jeito; eu sentia o coração dela acelerar ao me abraçar durante as tempestades. Mas hoje havia algo diferente nela – uma confiança tranquila que me fazia crer em cada palavra.

Enquanto ela me fazia carinho, lembrei de quanto nós dois tínhamos mudado desde aquele primeiro dia chuvoso. No começo, em nosso novo cotidiano, nem tudo foram flores. Eu era um filhote traumatizado e arteiro, e minha dona, embora amorosa, não tinha experiência em cuidar de cães com um passado difícil como o meu. Lembro das primeiras noites na casa nova: eu acordava latindo e chorando com pesadelos do abandono. Ela vinha correndo, me pegava no colo e sussurrava que estava tudo bem. Ficávamos assim até eu dormir novamente. Sua dedicação nunca faltou, mas eu podia sentir o cansaço e a preocupação nela.

Durante o dia, eu fazia algumas travessuras sem querer. Roí as pernas de uma cadeira na primeira semana — eu ainda não sabia como lidar com a ansiedade de ficar sozinho quando ela saía para o trabalho. Também mastiguei um par de sapatos favoritos dela (até hoje me envergonho disso). Quando ela chegava e via a bagunça, não brigava comigo severamente, mas sua frustração transparecia no suspiro e no olhar desanimado enquanto limpava tudo. Eu me encolhia num canto, com medo de ser expulso de sua vida por causa dos meus erros. Mas ela nunca me bateu nem gritou comigo. Em vez disso, respirava fundo e tentava me entender. Ainda assim, eu sabia que precisava melhorar meu comportamento, só não sabia como — e ela também buscava uma solução.

Houve um dia em que ela chegou em casa com arranhões no braço. Fiquei sabendo depois (ouvindo a conversa dela com uma amiga ao telefone) que eu não fui o culpado: ela tentara ajudar um cãozinho do vizinho durante um passeio e o cão, assustado, reagiu mal e a arranhou. Aquilo não a desanimou de ajudar, mas ela confessou à amiga que se sentia despreparada para lidar com certos comportamentos caninos mais difíceis, seja meu medo de tempestades ou cães ansiosos como o do vizinho. Lembro que nessa noite ela me fez um carinho diferente, meio pensativa, e disse baixinho para mim: "Vou aprender a cuidar melhor de vocês, prometo." Eu não entendi completamente, mas olhei de volta com meus olhos curiosos, embalado pela certeza de que ela sempre fazia o possível por mim.

Foi pouco tempo depois disso que notei uma mudança na rotina dela. Às noites, depois do trabalho e das minhas brincadeiras, ela passou a ficar algum tempo no computador, usando fones de ouvido. Eu via imagens se mexendo na tela – às vezes apareciam cães e pessoas demonstrando coisas. Ela também tinha um caderninho onde fazia anotações coloridas. Eu me deitava ao lado de sua cadeira, e apesar de não compreender bem o que ela assistia, sentia a empolgação na voz dela quando, vez ou outra, ela exclamava: "Então era isso!" ou "Que interessante!".

Curioso, certo dia subi quietinho com as patas na beira da mesa para espiar a tela. Vi um título grande em letras chamativas: "Curso Adestrador de Cães". Havia fotos de cães felizes ao lado de pessoas segurando certificados. Consegui ler (sim, eu reconheço algumas palavras humanas agora, de tanto ouvir): "Transforme sua paixão por cães em uma carreira de sucesso! 🌟". Vi também que tinha uma lista de benefícios com pequenos símbolos de tique verde ao lado de cada linha, mas minha visão canina não captou todos os detalhes. Lembro bem de alguns termos porque minha dona repetiu-os para si mesma em voz alta, provavelmente para memorizar: "Garantia de 7 dias... Certificado de conclusão... Acesso imediato... aulas teóricas e práticas..." Ela sorria enquanto lia, e percebi que aquilo lhe dava esperança.

Naquela noite, antes de dormir, ela se abaixou para me fazer um carinho de boa noite e comentou, com os olhos brilhando de empolgação: "Sombra, acho que encontrei exatamente o que a gente precisa. Um curso de adestramento. Vai me ensinar desde os princípios básicos até comandos avançados. E sabe... se eu aprender direitinho, posso te ajudar a não ter tanto medo e a se comportar melhor. Quem sabe até posso tornar disso uma carreira... já pensou?" Eu não fazia ideia do que era "curso" ou "carreira", mas adorei vê-la animada. Pelo tom de voz, entendi que ela estava feliz e confiante, e isso me fez abanar o rabo antes de adormecer aos pés da cama dela.

Os dias seguintes marcaram o início de uma nova fase para nós dois. Minha dona realmente mergulhou no tal curso de adestrador de cães. Ela chegava do trabalho, preparava nosso jantar – a minha ração e algo rápido para ela – e então abria o notebook na sala mesmo, onde eu podia ficar junto. Às vezes eu cochilava com a cabeça em seu pé, sentindo a vibração de sua voz enquanto ela repetia algumas lições em voz alta para fixar o conteúdo. Ela estava estudando o meu mundo, tentando compreendê-lo melhor. Era engraçado perceber isso: a pessoa que me ensinava coisas agora estava aprendendo, por minha causa e pelo amor que ela tinha por mim.

Logo ela começou a colocar em prática o que aprendia. Recordo-me nitidamente do primeiro comando que realmente dominamos juntos: o "sentar". Antes, ela já tentara me ensinar essa palavra, mas eu não entendia o que exatamente ela queria e sua frustração acabava me deixando confuso. Depois de algumas aulas do curso, uma tarde ela pegou alguns pedacinhos do meu petisco favorito, agachou-se à minha frente e com um sorriso determinado disse "Sombra, sente." Mas dessa vez, em vez de apenas repetir a palavra, ela esperou até que eu parasse de pular e de abocanhar os petiscos e gentilmente fez um gesto com a mão, guiando-me. Quando finalmente minha cauda encostou no chão, ela fez festa como nunca: "Isso, muito bem, garoto!" e me deu o petisco e muitos carinhos. Eu me senti o cão mais esperto do mundo naquele momento. A alegria dela era minha alegria. Dali em diante, aprender virou uma brincadeira adorada.

Em poucas semanas, eu já dava a pata, rolava na sala e até arriscava um "fica" enquanto ela andava para longe, voltando correndo para me abraçar quando eu obedecia direitinho. Cada novo truque aprendido era uma vitória compartilhada entre nós. Eu via nos olhos dela um orgulho verdadeiro cada vez que eu acertava algo. Na verdade, nós dois estávamos nos adestrando mutuamente: eu aprendia comandos e bom comportamento, e ela aprendia paciência, técnicas e principalmente uma nova confiança em si mesma como líder da matilha aqui de casa.

Um dos módulos do curso ensinou sobre socialização e correção de comportamentos indesejados. Minha dona aplicou isso levando-me com mais frequência ao parque para interagir com outros cães e pessoas. Antes eu tinha medo – especialmente de cães grandes – e ela também ficava receosa de que alguma briga acontecesse. Mas armada com o conhecimento novo, ela estava mais segura para me guiar. Com o tempo, seu pulso na guia ficou mais leve e eu sentia pela tensão da correia que ela não estava mais nervosa, então eu também relaxava. Encontramos um senhor com um labrador bege chamado Bolota, que costumávamos evitar porque eu rosnava inseguro. Dessa vez, minha dona conversou com o tutor do Bolota e combinou de nos apresentarmos devagar. Usou petiscos e meu brinquedo favorito para me distrair positivamente. Deu certo: em minutos eu já estava farejando o focinho do labrador e abanando o rabo em amizade. Era uma conquista e tanto! Minha dona me recompensou com elogios e ficou conversando alegremente com o outro tutor sobre como conseguira aquele progresso – ouvi ela mencionar algo sobre "reforço positivo" e "paciência", conceitos que claramente aprendera nas aulas.

Ela também aprendeu a lidar melhor com meus medos e ansiedades. Uma vez, o problema era minha aflição quando ela saía para trabalhar. Eu choramingava e arranhava a porta nos primeiros dias sozinho, temendo que ela não voltasse. O curso deu a ela estratégias para isso: ela passou a praticar saídas mais curtas primeiro, sempre voltando e me recompensando por me comportar bem. Criou um cantinho confortável para mim, com meus brinquedos preferidos e uma roupa velha com o cheiro dela para eu me sentir seguro. Gradualmente, eu entendi que quando ela saía, não era para sempre – e que ela sempre retornava para mim. Meu medo de separação foi diminuindo semana após semana. Hoje, quando ela pega a bolsa para sair, eu já não entro em pânico; apenas vou para meu cantinho, sabendo que logo mais a porta se abrirá e ela voltará sorrindo, talvez até com um petisco novo.

Outro desafio que superamos foi meus latidos excessivos sempre que alguém tocava a campainha ou passava em frente ao portão. Eu latia por alerta e também por insegurança. Seguindo as dicas do curso, ela me ensinou o comando "quieto" com calma e reforços. Não foi imediato – nada com comportamento canino realmente é – mas com persistência, passei a entender que não precisava fazer tanto escândalo. Agora, quando a campainha toca, dou apenas dois ou três latidos para avisar e em seguida corro para o lado dela, pois sei que vou ganhar um afago por me acalmar.

Cada pequeno triunfo no meu comportamento parecia motivá-la ainda mais. Lembro de ouvi-la comentar ao telefone com aquela mesma amiga de antes sobre o quanto eu tinha melhorado. Falava de mim com orgulho de mãe, enumerando: "Ah, o Sombra agora se comporta tão bem! Anda ao meu lado sem puxar a guia, já sabe sentar, ficar, dar a patinha... Até os medos dele estamos vencendo. Você acredita que outro dia teve trovão e ele não entrou em pânico?" – era verdade, eu já não ficava tão desesperado, porque ela também aprendera a me tranquilizar, fechando janelas, colocando uma música suave e me distraindo com brincadeiras quando a chuva começava. Ao telefone, ela também disse algo que me encheu de alegria canina, mesmo sem entender todas as palavras: "Esse curso foi a melhor decisão. Valeu cada centavo dos 97 reais que paguei. E olha, tinha até garantia de 7 dias, mas eu não precisei disso não! Em duas semanas já vi resultado. Agora tenho até um certificado de conclusão com meu nome – está pendurado na parede" – ela riu contente. Eu não sabia bem o que era certificado, mas vi quando ela pendurou um papel bonito na moldura do nosso corredor. Parecia importante para ela, então toda vez que passávamos por ele eu sentava e abanava o rabo, fazendo-a rir e me abraçar. Talvez eu achasse que era mais um comando novo – "certificado na parede significa sentar e ganhar carinho"? – mas na verdade eu só ficava feliz vendo-a feliz.

A conversa dela continuou, e eu, deitado aos seus pés, prestava atenção nos pedaços que reconhecia: "...pois é, me deu tanta confiança que estou pensando em ajudar a adestrar os cachorros aqui do bairro nas horas vagas. O curso até ensinou sobre como começar um negócio de adestramento, acredita? Marketing, preço dos serviços, essas coisas..." Senti orgulho da minha dona. Aquela mulher que me resgatou sem ter muita ideia de como cuidar de mim agora se tornara alguém capaz não só de me entender, mas de ajudar outros cães e pessoas. Ela sonhava alto, imaginando talvez transformar aquela paixão e talento recém-descobertos em carreira, exatamente como o texto de apresentação do curso sugeria. E eu? Eu seria seu fiel ajudante, é claro. Posso não saber muito de negócios, mas sei alegrar e motivar minha dona todos os dias – isso deve contar para o sucesso de qualquer empreendimento envolvendo cães, não é?

Eu me lembrava também dela comentando, em meio a toda empolgação, que o curso trazia um módulo bônus muito especial. Nele, diziam as aulas, ela aprenderia sobre treinamento de cães de serviço, cães de terapia e até cães de resgate, além de técnicas próprias para cães com deficiências auditivas ou visuais. Quando ela me falou disso, os olhos dela brilhavam emocionados – minha dona sempre acreditou no poder que nós, cães, temos de ajudar as pessoas, e saber que até os cachorrinhos surdos ou cegos podiam ser adestrados para viver melhor a deixou encantada. Era mais uma prova de como aquele curso era completo e feito com amor pelos cães.

De repente, um estalo forte veio lá de fora: um raio caiu não muito longe, iluminando a sala por um segundo em luz branca. Pulei de susto e deixei escapar um latido agudo. Em outros tempos, eu teria disparado para debaixo da cama ou ficaria girando em círculos, perdido em pânico. Mas dessa vez, apesar do medo instintivo, eu parei assim que vi a reação da minha dona. Ela não estava desesperada; em vez disso, correu calmamente até a cozinha e pegou algo – ouvi o barulho de um saco plástico familiar e reconheci que eram meus petiscos especiais. Voltou até onde eu estava, agachou-se sorrindo confiante e mostrou um pedacinho saboroso entre os dedos. Eu ainda estava ofegante e com as orelhas para trás, mas ao vê-la tão tranquila, fui me acalmando. "Sombra, olha o que eu tenho aqui..." ela disse num tom animado. Senti o cheiro do petisco e, mesmo com o trovão ressoando após o raio, concentrei meus sentidos naquele agrado. "Deita," ela pediu suavemente, fazendo o gesto com a mão que eu já conhecia. Meus músculos, antes tensos, obedeceram quase automaticamente – era um alívio deitar. Ela me recompensou imediatamente, acariciando minha barriga exposta e me dando o pedaço de petisco. "Bom garoto... tá tudo bem, viu?"

Fiquei ali deitado, com a cabeça agora apoiada nas pernas dela, enquanto a tempestade fazia seu espetáculo do lado de fora. Eu sentia medo, sim, mas não estava sozinho nessa tempestade – nunca mais estaria. Minha dona aprendeu a ser minha guia, minha líder e, acima de tudo, minha família. E eu aprendi a confiar nela de todo coração. A caneca de chá dela ainda estava pela metade em cima da mesa, esfriando esquecida; seu foco agora estava todo em mim, assim como tantas vezes o meu esteve nela.

O aguaceiro lá fora começava a amainar para uma chuva constante, porém mais branda. O pior da tempestade passara. Pela janela, vi que algumas poças na calçada refletiam a luz dos postes, formando pequenos espelhos tremeluzentes. Em um desses reflexos, pude ver nós dois: eu, um cachorro que já conheceu o abandono e o medo, agora de barriga para cima recebendo carinho; e ela, que já duvidou de si mesma, agora confiante e serena. Nós dois vencemos aquela chuva forte juntos – tanto a literal quanto as figurativas, aquelas tempestades internas de insegurança e de desafios que enfrentamos desde que nos encontramos.

Em dado momento, um leve choro soou do lado de fora, me fazendo erguer as orelhas. Não era o vento; parecia o lamento de algum animal. Minha dona também ouviu e franziu a testa, em alerta. Levantou-se devagar e eu, já esquecido do medo, segui imediatamente para a porta com ela. Ao abrir a porta, a cena do lado de fora era familiar: sob a luz fraca de um poste e com a chuva ainda caindo fina, um cachorrinho encharcado tentava se abrigar sob um banco do outro lado da rua. Era uma cadelinha jovem, pelos curtos colados ao corpo pela água, tremendo de frio e medo. Meus pelos se eriçaram não de ameaça, mas por recordar vividamente minha própria história. Eu olhei para minha dona; ela me devolveu o olhar, e sem precisar de palavra alguma nós sabíamos o que fazer.

Munida dos conhecimentos recém-adquiridos e de seu coração compassivo de sempre, minha dona pegou a mesma toalha, já seca e limpa, que um dia me envolveu. Juntos, corremos para ajudar a pequena cadela. Eu latia amigavelmente para a filhote, tentando dizer que estava tudo bem, enquanto minha dona se aproximava devagar, abaixada para não assustá-la. Com tons doces e agachada de lado (eu lembrava desse ensinamento do curso: aproximar-se no nível do cão e de forma não ameaçadora), ela estendeu a mão com um petisco que tinha guardado no bolso. A cadelinha hesitou, mas meu rabo abanando e minha postura tranquila ao lado de minha dona parecem tê-la encorajado. Em instantes, a pequena saiu de debaixo do banco, permitindo que minha dona a secasse com a toalha e a pegasse no colo.

Voltamos para casa com mais um ser tremendo nos braços dela. Enquanto fechávamos a porta, senti um forte déjà vu – era o passado se repetindo, mas com papéis ligeiramente diferentes. Agora eu era o cão que recebia o novo membro, oferecendo confiança, mostrando que ali havia amor e segurança. Minha dona estava visivelmente emocionada; seus olhos marejados lembravam aqueles do dia em que me resgatou. Colocamos a cadelinha aquecida numa caminha improvisada com cobertor, e eu me deitei bem perto para transmitir calor e companhia.

Observando minha dona cuidar do novo animal, percebi que ela já fazia uma avaliação rápida: passou a mão delicadamente pelo corpo da cadela para checar ferimentos, acalmou-a com palavras mansas e elogiou seu comportamento corajoso. Era o curso em ação, aliado ao instinto generoso dela. "Vamos pensar num nome para você, menina", eu a ouvi sussurrar. "Você deu sorte de a gente ter ouvido seu choro nesta chuva forte... Assim como eu tive sorte de ouvir o do Sombra naquele dia", disse, me lançando um sorriso cúmplice. Meu coração canino quase explodiu de felicidade ao vê-la unindo nossas histórias dessa forma.

Naquela noite, dormimos os três na sala. Minha dona adormeceu ali mesmo, exausta e contente, encostada no sofá. Eu fiquei entre ela e a filhote resgatada, vigiando as duas – sim, agora eu também cuidava delas, como um guardião de quatro patas. Lá fora, a chuva finalmente cessara, dando lugar a um silêncio pacífico, cortado apenas pela respiração suave de quem dorme seguro.

O dia da chuva forte que começou turbulento terminara como um dos dias mais felizes da minha vida. Eu tinha visto de onde viemos e para onde estávamos indo: de um passado de abandono e insegurança a um presente de confiança, aprendizado e amor – e, quem sabe, a um futuro onde minha dona transformaria essa paixão por cuidar em uma carreira, ajudando muitos outros cães como eu e a pequena recém-chegada. Talvez um dia eu a veja sendo chamada de "adestradora profissional", com vários alunos caninos seguindo seus passos. Eu certamente serei seu assistente e demonstrarei com orgulho tudo o que aprendi.

Aninhado ali, entre a pessoa que me salvou e a nova vida que ajudamos a salvar juntos, fechei meus olhos. Agradeci silenciosamente por aquela chuva forte – tanto a de hoje quanto a de anos atrás. Sem elas, nossos caminhos não teriam se cruzado e nós não seríamos quem somos agora. Porque às vezes é na tempestade que encontramos a nossa maior chance de abrigar e ser abrigo, de aprender e ensinar, e de amar sem medidas.


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