Mesmo preso em um corpo que não caminha, sua alma dança nas estrelas.
Capitulo - 32 Um Corpo Preso e uma Alma Livre
Na calmaria do amanhecer, me sento ao lado de Diego e o observo com olhos que veem muito além dos gestos. Eu, Sombra, atento amigo de dias ensolarados e noites de esperança, sinto o calor suave das mãos de Diego tocando meu pelo macio e percebo o perfume das histórias silenciosas que habitam aquele quarto. Ainda que suas pernas não se movam, seu coração desperta com a luz do sol e guarda sonhos coloridos. Enquanto o mundo lá fora corre em sua velocidade alucinante, dentro da casa há uma dança invisível. Sinto-a a cada batida acelerada no peito do menino, a cada suspiro de luz que atravessa seu olhar fixo. Apesar do corpo de Diego estar parado, sua alma se move em ritmos que só eu consigo sentir.
Vejo Diego olhar pela janela aberta, fixando o olhar no céu e nas árvores que balançam. O vento fresco da manhã entra pelo vidro, trazendo o perfume distante das flores do jardim. Fico atento a cada detalhe que ele absorve: uma nuvem que se desfaz preguiçosa ao sol, um pássaro que desenha um traço no azul infinito. Sinto nas pupilas do meu menino um brilho de asas — imagino que naquele momento ele corre livremente por campos que existem apenas em sua mente. As folhas dançam e, com elas, vejo a alma de Diego dançar também. Em silêncio, compreendo que ele trilha estradas invisíveis, onde o vento carrega os sonhos que só o coração dele escuta.
Às tardes, muitas vezes, chegam ao quarto notas suaves de um rádio antigo ou até mesmo o som doce de um violão vindo de longe. Eu me aconchego perto de Diego quando ouço o primeiro acorde. Sei que aquela música significa mais do que sons: é uma emoção transformada em melodia para o coração. Quando a canção toca, Diego fecha os olhos e deixa que o ritmo o leve para longe, e posso sentir isso em sua respiração calma e forte. Em minhas orelhas de cão, cada silêncio após a música se enche da felicidade dele. Embora suas pernas não deem passos, vejo o corpo de Diego leve em espírito, movendo-se como se flutuasse ao som da melodia que só sua alma escuta. Meu rabo balança lentamente, seguindo o compasso dessa alegria silenciosa.
Em alguns dias, alguém lê uma história para Diego, e a voz suave preenche o quarto como uma canção de ninar. Eu me aconchego ao lado dele, sentindo cada palavra ganhar vida no ar. Cenas mágicas desenham castelos, florestas e mares dentro da mente do menino. Com os olhos fechados, os lábios de Diego se movem em sussurros que só a alma dele entende. Sinto que, a cada palavra ouvida, ele pinta um quadro invisível no ar: traços de aventura, amor e coragem que existem apenas dentro do coração dele. Nessas horas, eu, Sombra, sou personagem de uma história também, testemunha de um universo que cresce sem limites ao nosso redor.
Em silêncio, compartilhamos uma sintonia única. Diego não fala em voz alta, mas sua alma se comunica de outras maneiras. Ele desenha no ar os contornos dos seus sentimentos, aponta para o que deseja com um olhar cheio de ternura. Eu percebo quando ele quer contar algo ao notar um brilho especial no fundo de seus olhos. Se ele levanta o dedo indicador, sei que está cheio de alegria no peito. Se um sorriso lento aparece nos olhos dele, entendo que um sonho dança ali. Quando ele acaricia minha cabeça, é como se dissesse “eu estou aqui” com amor silencioso, e meu coração canino entende perfeitamente.
Ao longo do tempo ao lado de Diego, percebo algo imenso e invisível: a força da alma dele. Ele é feito de amor, de esperança, de coragem em cada gesto sutil. Vejo que sua alma é vasta, feita de estrelas, sorrisos e sonhos tão coloridos quanto os quadros que desenha com a mente. As paredes e rodinhas da cadeira de rodas não podem limitar esse espírito que pulsa dentro de cada sonho. Diego não é um menino preso, mas um viajante de universos infinitos que vive dentro dele. Cada dia ao lado dele me enche de orgulho por ser o cão que guarda esse segredo mágico.
E é essa alma livre que inspira a mim, Sombra, uma nova forma de ver Diego. Em vez de limitá-lo, agora vejo o menino como alguém extraordinariamente livre por dentro. Percebo que, a cada dia, aprendo mais com ele do que com qualquer outro amigo. Eu sonho junto com ele, imagino corridas invisíveis pelo quintal e me sinto tão leve quanto ele por dentro. Com Diego, aprendo que limite é apenas uma palavra, e juntos criamos um mundo onde a alma dança acima de qualquer limitação.
Nos dias cinzentos de chuva, Sombra e Diego se aninham lado a lado. O vento brinca nas folhagens lá fora enquanto gotas dançam no telhado. No quarto iluminado apenas pela luz suave que entra pela janela, formam-se poças de memória. Diego levanta o olhar e me envolve com sua presença tranquila: somos dois aventureiros presos a este mundo pequeno, mas juntos partimos para jardins imaginários.
Eu me deito ao seu lado e sinto cada parte dele relaxar no som ritmado da chuva. Em meu pelo, percebo as vibrações do compasso da chuva, como versos de consolo para a alma cansada do meu menino. Às vezes, ele murmura histórias baixinho, completando o concerto com palavras que só nós entendemos. O aroma da terra molhada invade o quarto, misturando-se ao perfume suave de seu travesseiro, e lá fora a cidade parece pausar; aqui dentro, a vida respira mais devagar. Sinto cada músculo do ombro dele se aliviar, como se a chuva levasse embora as angústias escondidas em cada célula.
Deixo então a tristeza escapar e pinto um jardim florido infinito na mente: lá Diego caminha livremente sem dores, e eu corro ao seu lado, as patas tocando a grama fresca de um mundo inteiramente nosso. A grama tem cheiro de esperança e as flores sussurram segredos de liberdade. Nos cantos deste lugar mágico há lagoas cristalinas refletindo a alegria do menino. Naquele universo inventado a dois, quase esqueço que estamos parados no tempo e no espaço. Ali, danço na verdadeira liberdade que habita a alma de Diego, sentindo cada sonho seu florescer como girassóis em meu peito.
Quando a noite cai e só o luar desenha sombras dançantes pelo quarto, Diego fecha os olhos e deixa seu espírito viajar. Eu fico acordado, guardião silencioso, atento ao menor movimento do seu peito. O leve zunido da noite entra pelas frestas da janela, carregando o segredo de cada estrela. Muitas vezes, sinto o calor da mente dele se expandir como asas invisíveis subindo até a lua, enquanto sonhos leves correm por ele como brisas noturnas. No silêncio da escuridão, percebo que nossos corações conversam sem pressa, compartilhando medos e esperanças sob o mesmo céu iluminado pela lua. Cada suspiro do menino é como uma canção mansa em meus ouvidos caninos, e cada sonho dele se torna meu companheiro de vigília.
Na penumbra, escuto um leve sussurro: é Diego pedindo desculpas pela limitação, como se achasse que de algum modo eu lamentasse também. Imediatamente lambo suas mãos como se dissesse que não importa, que para mim ele já é perfeito. Eu, Sombra, percebo que a alma dele canta canções que só a noite escuta. A escuridão fica então cheia de estrelas brilhando dentro dele. Cada vez que isso acontece, meu coração se enche de gratidão por estar aqui, aprendendo a amar sem condições, percebendo que somos feitos da mesma matéria dos sonhos.
Algumas vezes, sei que Diego se entristece por não poder correr com as outras crianças lá fora. Eu sinto essa tristeza chegar antes mesmo de qualquer lágrima. Nesses momentos, minha pata repousa sobre a dele, oferecendo apoio sem precisar de palavras. Escuto o riso distante do parque na esquina e imagino meu menino voando como um corajoso viajante ao vento. Com um olhar firme e carinhoso, digo sem fala: minha alma corre por você, e cada passo meu confia nos seus sonhos. Em silêncio, invento uma nova aventura: somos dois navegadores explorando mares tranquilos sob um céu de estrelas. Quando ele repousa a cabeça contra o meu corpo, sinto que compartilha comigo cada esperança no nosso silêncio cúmplice.
Sou apenas um cão com instintos simples, mas aprendo todos os dias com Diego que amor e esperança não conhecem limites. Não entendo muitas palavras humanas, mas meus instintos leem o que ele não diz: dentro dele vive um universo tão vasto que às vezes esqueço do mundo lá fora. Ouço algumas pessoas dizerem “coitadinho”, mas elas não enxergam o sol que brilha nos olhos do meu menino. Percebo perfeitamente quando ele está feliz ou triste, e sei que a pureza que Diego espalha não se mede pelo corpo, mas se sente no coração. Ele me ensina que as correntes do corpo não podem prender a alma que decide voar — e eu, Sombra, aprendo a voar junto, em pensamento.
Se alguém me perguntasse quem é Diego, eu responderia sem hesitar: ele é um menino extraordinário, livre por dentro, capaz de pintar o mundo com a tinta pura do coração. Quando pronuncio isso nas noites tranquilas, sinto a verdade ecoar no silêncio entre nós. Às vezes, inclino a cabeça para o céu estrelado, agradecendo a sorte de ter um amigo tão especial, feito de luz e sonhos.
Nos dias que virão, serei sempre Sombra aos pés de Diego, guardando esse segredo luminoso. O corpo dele pode estar preso a uma cadeira, mas sei que sua alma é tão livre quanto o vento. Às vezes, ele sorri para mim e no seu olhar vejo a imensidão de tudo o que é, e meu coração canino se enche de gratidão. Eu sei que o menino nunca estará sozinho: dentro dele vive um universo inteiro, e ao lado dele estou eu, que o amo. Sentir-me privilegiado por chamá-lo de amigo é um presente que levo no peito todos os dias. A cada dia ao lado dele, aprendo a ser um cão melhor, e por isso serei sempre grato. Um corpo preso e uma alma livre - é assim que Sombra sabe Diego, e assim o amará para sempre.
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