Por trás da inveja, um coração pede amor em silêncio.
Capítulo 34 - A Inveja da Criança Vizinha
Eu senti o cheiro da inquietação antes mesmo de vê-la. Naquela tarde de céu morno e brisa leve, quando os vizinhos atravessaram o portão para nos visitar, algo no ar denunciou que não seria um encontro comum. Entre os adultos que trocavam cumprimentos cordiais, avistei aquela criança parada meio atrás da mãe, com os braços cruzados e o olhar baixo. Suas mãos pequenas apertavam a barra da camisa, e mesmo de longe pude ouvir seu suspiro curto e impaciente. Eu, Sombra, sempre percebo o que os humanos tentam ocultar.
Aproximando-me da família de Diego, mantive-me ao lado de meu menino, como sempre. Diego, em sua cadeira, observava tudo com seus olhos curiosos e tranquilos. Ao contrário dele, que exibia um meio sorriso sereno, a criança vizinha mal ergueu os olhos para nos encarar. Mas eu a observava atentamente. Meus ouvidos captavam o ritmo acelerado de sua respiração, e meu nariz distinguia algo amargo no ar — um cheiro sutil de tristeza misturada com aquela energia áspera que os humanos chamam de inveja.
Não era a primeira vez que ela aparecia por perto. Já a vi outras vezes espiando por sobre a cerca viva ou acenando timidamente quando eu passeava com Carlos, o pai de Diego, pelo quarteirão. Sempre achei curioso como seus olhos seguiam cada movimento nosso, especialmente quando Carlos empurrava a cadeira de Diego ou quando eu carregava a bolinha de brincar em minha boca. Mas hoje, com ela ali tão próxima, pude perceber mais claramente o que antes era só suspeita: havia um vazio naquele olhar castanho, um desejo não dito.
Enquanto os adultos conversavam na varanda — a mãe de Diego oferecendo um copo de suco à vizinha, o pai comentando sobre o tempo — a criança foi ficando para trás, escorada em uma coluna. Notei que ela nos observava de soslaio. Quando Ana, a mãe de Diego, se abaixou ao lado da cadeira para ajeitar uma mecha de cabelo do filho, vi um lampejo diferente no rosto da pequena vizinha. Seus lábios se contraíram num bico insatisfeito, e ela bateu de leve o pé no chão. Era um gesto quase imperceptível, mas para mim foi como um trovão mudo: havia desgosto ali.
Aproximei-me alguns passos em direção à menina, mantendo um olhar calmo e a cauda abanando devagar. Eu queria examinar mais de perto, entender aquele cenário. Pela minha experiência, eu sabia que nem toda inquietação de uma criança é birra sem motivo; às vezes, é dor disfarçada. Meu faro confirmava: ao redor dela pairava um aroma de quem segura o choro.
Foi então que notei o brinquedo esquecido perto de seus pés — um ursinho de pelúcia de olhar surrado, provavelmente trazido de casa para a visita. A mão da menina tocava distraidamente a orelha puída do ursinho enquanto seus olhos vagavam entre Diego e os pais dele, que agora falavam sobre as flores do jardim. Ninguém parecia reparar no silêncio pesado da criança, mas eu sim. Dei mais um passo, silencioso como a sombra que sou, e aspirei fundo o ar ao redor: senti o leve sal das lágrimas contidas.
Diego, mesmo sem poder falar ou se mover muito, notou minha avançada. Seus olhos me seguiram e depois pousaram na vizinha. Conheço bem meu menino — aquele brilho curioso denunciava que ele também percebia algo diferente. Ele piscou lentamente duas vezes, como faz quando quer se comunicar comigo. Entendi o recado: “Fique atento, amigo.”
Mantive-me alerta. Se houvesse alguma ameaça àquele lar, eu a afastaria; essa é minha missão. Mas o que senti daquela criança não foi exatamente uma ameaça, e sim uma aflição que ela mesma parecia não compreender. É intrigante pensar que a inveja, sobretudo no peito de uma criança, não é malícia pura. É um pedido. Um pedido de algo que falta e que talvez ela nem saiba nomear.
Lembrei-me de mim mesmo em outros tempos. Antes de encontrar Diego e sua família, eu também já senti um vazio assim. Nas ruas onde nasci, via outros cães com donos carinhosos e comida farta, enquanto eu vagava com fome e sem um colo para deitar. Não era raiva o que eu sentia ao olhar aqueles cães de sorte — era uma pontada de anseio, de vontade de ter aquilo também. Talvez a inveja daquela menina fosse parecida com o que eu experimentei: não desejar o mal de Diego, mas querer para si um pouco do amor que via ao redor dele.
Perdido nessas reflexões, quase não notei quando a conversa na varanda foi interrompida pela voz fina da criança. — Eu também quero brincar com o Sombra! — ela disse de súbito, com um fio de lamentação que não passou despercebido por meus ouvidos atentos. Seu pai a repreendeu de leve: — Não interrompa, querida. Já já vamos embora. — Ao ouvir isso, os olhos da menina se encheram de urgência.
Aproximei-me dela mais um pouco, agora tão perto que pude sentir o calor que emanava de sua pele. Sentei-me cuidadosamente a um metro de distância, a cauda ainda balançando suave. Inclinei a cabeça para o lado — um gesto que aprendi que muitas crianças acham engraçado — mas ela não riu. Apenas me olhou de volta, finalmente encarando meus olhos. O que vi ali me desarmou: não havia maldade, apenas uma tristeza teimosa misturada com esperança.
Ana percebeu o nosso pequeno duelo de olhares e chamou a menina com ternura: — Venha, meu bem, você quer fazer carinho no Diego? — A vizinha hesitou, escondendo-se meio passo atrás das pernas da mãe. Claramente, não era isso que ela queria. Seus olhos piscavam rápido como quem segura um sentimento forte. Eu oscilava as orelhas, tentando captar não apenas sons, mas a verdade invisível que pairava ali.
Com um leve ganido, quase um suspiro, rastejei mais perto ainda — agora meu queixo quase tocava o sapato dela. Estendi uma patinha devagar e arranhei de leve o chão, chamando sua atenção para mim. Finalmente, um brilho de curiosidade venceu a tristeza em seu olhar. Ela se agachou devagar, soltando o ursinho no chão ao lado. Seus dedos pairaram hesitantes acima da minha cabeça antes de criarem coragem para tocar minhas orelhas.
Ah, o primeiro toque. Senti a mão dela, trêmula no início, afundar levemente na minha pelagem negra. Fechei os olhos por um instante, aproveitando o cafuné suave. Ouvi um suspiro diferente agora — longo, quase aliviado — escapar dos lábios da menina. Sua mão ganhou firmeza e logo achei o ponto exato atrás da minha orelha que me faz bater a pata no chão de contentamento. Não resisti a demonstrar minha alegria: deixei a língua cair para fora em um ofego satisfeito e lambi o ar, como se agradecesse.
A gargalhada dela preencheu o silêncio da tarde. Não era um riso alto, mas para mim soou como sinos delicados. Abri os olhos a tempo de vê-la esfregar os olhos com a mão livre — não sei se para afastar uma lágrima rebelde ou só para coçar de emoção. Seu rosto, antes fechado, agora se abria em um sorriso verdadeiro, ainda que tímido.
Ergui a pata e a coloquei, leve, sobre o joelho da criança, em um gesto que aprendi com os humanos significar companheirismo. Vi de perto seu rosto se iluminar. Era como se todo aquele cinza em torno dela se dissolvesse um pouquinho. O pai, que assistia de longe tentando esconder a impaciência, relaxou os ombros. A mãe, antes ocupada em conversa, levava agora a mão à boca, emocionada com a cena. Havia uma quietude diferente ao nosso redor — daqueles silêncios bons, em que ninguém ousa interferir para não quebrar a magia.
Senti então Diego movimentar-se ligeiramente atrás de mim. Ele emitia um som baixo, um meio gemido que conheço bem: era seu jeito de chamar a atenção. Afastei-me delicadamente da menina e voltei para junto de meu menino. Diego nos observava, e tenho certeza de que aquele brilho em seus olhos era de felicidade por ver sua pequena vizinha agora sorrindo. Ele, que compreende tão bem a dor de se sentir preso em silêncio, parecia querer participar daquele momento.
A menina se levantou, ainda com uma mão sobre minha cabeça, e deu alguns passos cautelosos em direção a Diego. Olhou primeiro para os pais, como quem pede permissão ou coragem, e então aproximou-se da cadeira. Eu me coloquei ao lado dela, como um guardião que escolta um novo amigo. Se Diego pudesse, tenho certeza de que abriria os braços para recebê-la, mas ele só conseguiu oferecer seu olhar atento e um leve mover de dedos sobre a manta que cobria seu colo.
— Oi... — murmurou a criança, quase num sussurro, fitando o rosto de Diego. Meu menino respondeu com o que tinha: piscou duas vezes lentamente e esboçou aquele sorrisinho de canto de boca que é quase imperceptível para quem não o conhece. Mas eu vi. E acho que ela também viu, porque se inclinou mais perto, vencendo o último resquício de medo. Com cuidado, ela tocou a mão de Diego, pousando seus dedinhos sobre os dele.
Foi um toque tímido e rápido, mas carregado de significado. Diego emitiu um som suave — um suspiro feliz, talvez — e seus olhos brilharam com uma faísca de emoção. A mãe de Diego deixou escapar um soluço contido, virando o rosto para disfarçar a lágrima que já lhe molhava os cílios. O pai pigarreou baixinho, aquela maneira que os adultos têm de afugentar o choro que vem sem avisar.
E eu? Eu permaneci sentadinho ao lado dos dois, com o coração aquecido como se estivesse diante de uma lareira em pleno inverno. Se pudesse falar a língua dos humanos, eu diria: “Está vendo, pequena? Ele te entende. Nós entendemos.” Mas eu acho que ela de alguma forma ouviu isso do meu jeito, porque se voltou para mim e afundou os dedos na minha pelagem novamente, num cafuné cheio de gratidão silenciosa.
Naquele fim de tarde, o sol começava a se deitar no horizonte, tingindo o céu de laranja e dourado. Os vizinhos logo se despediriam para voltar a suas rotinas. Mas antes de ir, a menininha correu de volta à varanda para pegar seu ursinho esquecido. Apertou-o contra o peito e, num gesto inesperado, aproximou-o de mim e de Diego como se fizesse o boneco nos dar tchau. Foi um instante breve e doce: ela deu voz ao ursinho, dizendo um “Até logo, amigos!” em falsete suave.
Os pais trocaram sorrisos entre si e com os de Diego. A mãe da menina afagou os cabelos da filha, e eu vi no semblante daquela mulher um alívio terno, como se ela também tivesse encontrado algo que buscava sem saber. Talvez entendesse agora o porquê da inquietação da filha, talvez prometesse a si mesma dar-lhe mais abraços em casa. É difícil traduzir o que um olhar de mãe diz, mas aquele me pareceu dizer “Eu te escuto” sem nenhuma palavra.
Com as despedidas feitas, fiquei observando pelo portão enquanto eles se afastavam pela rua. A menina caminhava de mãos dadas com os pais — algo que na chegada ela recusara fazer, lembro bem. Agora ia no meio dos dois, balançando o braço da mãe e abraçando o ursinho com o outro. Antes de dobrar a esquina, ela se virou e acenou não só para nós, mas também para a casa, para aquele universo de amor que testemunhara de perto. Respondi com um latido curto e festivo, uma espécie de “Volte logo” na minha linguagem.
Quando o portão se fechou e a noite começou a espalhar suas sombras pelo jardim, deitei-me ao lado da cadeira de Diego. Ele ainda tinha nos olhos o reflexo do pôr do sol e, quem sabe, das emoções daquele encontro. Encostei minha cabeça em seu colo e senti seus dedos fracos tentarem acariciar minha orelha — um gesto trêmulo, mas cheio de carinho. Ali ficamos os dois em silêncio. Os pais de Diego arrumavam as xícaras e copos vazios lá dentro, dando-nos nosso momento.
Pensei em como o dia começara com um cheiro de inveja no ar e terminara com perfume de esperança. Lembrei da tristeza dura na expressão da menina e a comparei à imagem dela acenando sorridente ao partir. Não, eu não tinha o poder de consertar todas as dores do mundo, nem de preencher completamente o vazio que existe em cada ser. Mas naquele dia, com um gesto simples e sincero, ajudei a transformar a inveja em algo diferente. Vi brotar no solo árido de um coração infantil uma florzinha de alegria — frágil ainda, mas real.
Antes de o sono nos envolver, lancei um último olhar para Diego e pensei em tudo que ele me ensinou desde que cheguei a essa família. Aprendi que amor chama amor, que uma centelha de afeto pode incendiar de luz um quarto escuro. E que por trás da inveja, muitas vezes, há apenas uma criança pedindo, em silêncio, para ser amada.
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