Há quem enxergue apenas feridas e esqueça que cura também se faz com carinho.
Capítulo 55 - O Médico que Não Entendia o Amor
Por muitos anos, acompanhei Diego em consultórios e hospitais. Visitei inúmeros corredores perfumados de desinfetante e repletos de pessoas de jalecos brancos. Vi lágrimas e sorrisos, dores e alívios. Conheci enfermeiros gentis e médicos atenciosos, mas também cruzei com aqueles que viam no paciente apenas uma ficha a ser preenchida, um número de prontuário. Estes últimos, raros, sempre me deixavam inquieto. E numa manhã de abril, cruzamos com um deles. Um médico que, ao contrário de todos os outros, não entendia o amor.
A ida ao consultório
Era uma manhã fresca, com o céu pintado de azul e nuvens salpicadas como algodão doce. Os pássaros cantavam harmoniosamente. O cheiro de pão quente saía da padaria da esquina, misturando-se ao aroma de café recém-passado que escorria na nossa cozinha. Diego acordou sorrindo, animado com o dia. Ele tinha uma consulta de rotina com um novo médico, recomendado por uma amiga da mãe. Era um especialista em reabilitação, alguém que poderia trazer novas ideias para melhorar a vida de Diego. A mãe havia lido muitos artigos sobre suas técnicas e se sentia esperançosa. O pai, sempre cuidadoso, decidiu levá-lo pessoalmente.
Eu, naturalmente, fui junto. Senti o cheiro de ansiedade e expectativa no ar. Diego se arrumou com um cuidado especial. A mãe vestiu-lhe uma camiseta azul clara, a cor que mais combinava com seus olhos, e uma calça confortável. Colocou-lhe um sapato novo, recém-comprado, e disse, sorrindo:
– Hoje vai ser bom, filho. O doutor vai te ajudar.
Ele retribuiu o sorriso e me acariciou. Em seguida, pegamos o carro e seguimos rumo ao consultório. A cidade já estava acordada. Pessoas atravessavam ruas, carros buzinavam, cachorros latiam, bicicletas passavam. O aroma da poluição misturava-se ao dos jacarandás floridos. Pássaros voavam de árvore em árvore. Eu, no banco de trás, observava tudo pela janela: casais discutindo, trabalhadores apressados, crianças com mochilas coloridas. O mundo estava tão vivo, e, ao mesmo tempo, eu pensava no nosso objetivo.
Chegamos ao prédio do consultório. Era alto, com paredes de vidro. O saguão tinha um cheiro forte de ar condicionado e perfume caro. Gente elegante passava, carregando pastas e sacolas. Havia um elevador de aço polido que refletia nossos rostos. Entramos nele. O espelho mostrava Diego no meio, com o pai ao lado e eu no chão. Sorri, vendo minha língua pendurada, e Diego riu.
Chegamos ao andar do consultório. A recepção era moderna, com poltronas confortáveis e revistas de saúde. O cheiro de álcool em gel predominava. A recepcionista nos recebeu com um sorriso de praxe, escreveu o nome de Diego em uma ficha e pediu para aguardarmos. Enquanto esperávamos, observei as pessoas. Um senhor de bengala, que falava baixinho com a filha. Uma mulher grávida que acariciava a barriga. Um adolescente com o braço imobilizado. Todos ali em busca de cuidados. O ar parecia cheio de esperanças, medos e sonhos.
O encontro com o médico
Após alguns minutos, a porta se abriu e uma enfermeira apareceu. Ela sorriu e chamou:
– Diego, por favor.
Levantamo-nos. Eu segui ao lado da cadeira de rodas. A enfermeira sorriu ao me ver e perguntou:
– Ele é de apoio?
O pai assentiu.
– Sim, ele está sempre ao lado do Diego.
– Certo – ela respondeu, simpática. – Podem entrar.
Entramos no consultório. Era um espaço bem iluminado, com uma janela ampla, por onde a luz natural entrava. Havia uma mesa com papéis, um laptop, alguns diplomas pendurados nas paredes, um armário com instrumentos, e uma maca. O cheiro era forte de medicamento, mistura de clorexidina e álcool. O médico estava de costas, olhando algo no computador. Usava jaleco branco impecável. Seu cabelo era grisalho, e a nuca tinha algumas rugas. Voltou-se para nós, com expressão neutra. Seus olhos eram frios, quase inexpressivos. Havia algo nele que me inquietou: nenhum sorriso, nenhuma empatia. Apenas profissionalismo. Ele se apresentou:
– Bom dia. Sou o doutor Eduardo. Sentem-se, por favor.
Diego sorriu timidamente.
– Oi, doutor – disse, educado.
O pai cumprimentou, firme. Eu me sentei ao lado da cadeira, aguardando. O doutor nem me olhou. Abriu uma pasta, pegou alguns papéis.
– Diego, certo? – Ele levantou o olhar rapidamente para o garoto. – Tem nove anos. Sofre de paralisia cerebral espástica. Dificuldades de movimentação, mas sem comprometimento cognitivo. Correto?
– Sim – respondeu o pai.
– Anda com cadeira de rodas, usa órteses, faz fisioterapia há seis anos. – Ele falava sem emoção, como se estivesse lendo uma lista de compras.
– Isso – confirmou o pai, já incomodado.
– Por que, exatamente, me procuraram? – perguntou o doutor, ainda sem olhar no rosto de Diego.
A mãe, nervosa, respondeu:
– Soubemos que o senhor é especialista em reabilitação. Queria uma segunda opinião, ver se há algo mais que possamos fazer para melhorar a qualidade de vida do nosso filho.
Ele assentiu, pegando uma caneta.
– Certo. Sente-se ali, Diego – apontou para a maca. Diego olhou para o pai, que o ajudou. Eu o segui, observando.
O doutor começou a examinar Diego, apertando músculos, verificando reflexos, perguntando sobre dores, medicações. Sua voz era monótona. Ele não sorria. Não se dirigia a Diego com carinho. Não perguntava como se sentia. Apenas perguntava números: “Nível de dor de 0 a 10?” e “Quantas horas de fisioterapia por semana?”. E anotava.
– Seu cachorro precisa ficar fora – de repente, disse o doutor, sem olhar para mim.
– Ele é fundamental para acalmar o Diego – explicou o pai, surpreso.
– Sinto muito – respondeu ele, frio. – Não gosto de animais aqui. Além de antihigiênico, pode distrair. E, francamente, não vejo utilidade nisso. Ele pode esperar lá fora com a senhora enfermeira.
Diego abriu a boca, surpreso. Olhou para mim, depois para o pai. Senti seu cheiro de nervosismo. O pai tentou argumentar:
– Doutor, ele é um cão de apoio. Já salvou a vida do Diego em crises. Ele se acalma com ele. – Sua voz transmitia respeito, mas determinação.
– Entendo – o médico respondeu, seco. – Mas aqui não vejo necessidade. Precisamos de um exame físico e, se a criança estiver distraída com um animal, atrapalha. Farei meu trabalho melhor se ele não estiver aqui.
Todos ficaram em silêncio. Eu olhei para o pai. Vi em seus olhos a batalha interna. Ele queria que eu ficasse, mas não queria discutir. A mãe respirou fundo, tentando manter a calma. Diego engoliu em seco. Seus olhos se encheram de lágrimas.
– Mas… – ele sussurrou. – Eu não quero que o Sombra saia.
– Diego – disse o doutor, finalmente olhando-o nos olhos –, precisamos de seriedade. Ele pode esperar do lado de fora. Não vai demorar. – Sua voz era firme, indiscutível.
O pai hesitou, mas colocou a mão no meu pescoço. Eu senti. Era como um pedido de desculpas silencioso. Levantou-se e disse:
– Sombra, vamos dar uma volta, então? – Olhou para mim. – É rápido.
Eu queria ficar. Queria mostrar ao doutor que não atrapalhava. Queria provar que minha presença era terapêutica. Mas obedeci. Levantei-me e saí, cabisbaixo. No corredor, a enfermeira me olhou com pena. Eu sentia uma mistura de tristeza e raiva. Como poderia alguém, um médico, não entender que Diego precisava de mim? Como poderia um homem que jurou curar feridas ignorar a maior cura, que era amor?
No corredor da frieza
O corredor do consultório era frio, não apenas na temperatura. Havia uma corrente de ar que vinha do ar condicionado e que misturava cheiros de perfume de mulheres elegantes e de papel recém-impresso. As pessoas passavam, olhavam meus olhos e, às vezes, sorriam, sabendo quem eu era. A enfermeira passou a mão na minha cabeça. Eu sentei-me ao lado da porta, esperando. Lá dentro, o médico continuava perguntando sobre números e músculos. Eu, do lado de fora, escutava. Escutava a voz dele, calma e profissional. Escutava a voz de Diego, tensa. Escutava o pai respirando fundo. Escutava a mãe batendo o pé no chão, impaciente.
De vez em quando, eu fechava os olhos, tentando me acalmar. O cheiro do corredor me lembrava que eu estava sendo excluído. Sentia algo que nunca havia sentido antes: inutilidade. Sempre fui útil. Sempre ajudei. Minha língua acalmava, meu uivo salvava, minha corrida curava. Agora, alguém disse que não valia a pena. Senti-me pequeno.
A incompreensão do doutor
Depois de quinze minutos, a porta se abriu. O médico passou, segurando uma pasta. Aproximou-se da recepção. Eu, atento, ouvi seu diálogo com a recepcionista. Ele comentava algo sobre a “teimosia” dos pais e como era “complicado quando as pessoas depositam confiança em algo sem fundamento”. Fiquei chocado. Ele não entendia. Ele não sabia. Ou não queria saber. O pai saiu da sala, com Diego na cadeira. O pai não disfarçava a irritação. A mãe, os olhos marejados. Diego, pálido e triste.
– E então? – a recepcionista perguntou, sorrindo falsamente.
– Tudo sob controle. – O doutor sorriu pela primeira vez, mas era um sorriso de arrogância. – É só seguir os exercícios. – Voltou-se para Diego: – Faça o que eu disse, menino. Duas horas de fisioterapia intensa por dia, e essa cadeira de rodas vira história. Sem bichos de estimação por perto. Se as pessoas continuam tratando cães como humanos, fica difícil reabilitar.
Naquele momento, senti algo como raiva. Uma raiva diferente. Não era ódio. Era indignação. O homem parecia acreditar que tudo era questão de força física, que apenas músculos curados importavam. Não via que existem músculos invisíveis: o coração, a alma, a empatia. E que estes também precisam de terapia.
O pai se aproximou da recepcionista, pegou a receita, pagou a consulta, sem dizer uma palavra. A mãe manteve os olhos baixos. Diego foi o único que falou:
– Doutor? – Sua voz era fraca. – O senhor acha que o Sombra não ajuda?
O médico o olhou de cima a baixo. Não com raiva, mas com pena.
– Acho que os cães são ótimos. – Sorriu, condescendente. – Para brincar no quintal. Mas, aqui, é ciência. E isso não inclui bichos. – Apontou para a porta. – Tenha um bom dia.
Senti como se ele tivesse cuspido nas nossas histórias. Dei um passo em sua direção. Lati. Não alto, não raivoso. Um latido curto. Eu queria que ele sentisse. Ele se assustou, olhou para mim por um segundo e depois desviou. Saímos dali com pressa. O pai segurava o guidão da cadeira. A mãe não falava. O silêncio pesava mais do que qualquer grito.
A reflexão no carro
Dentro do carro, o pai suspirou.
– Que arrogante – murmurou. – Não entendeu nada.
– E as pessoas dizem que ele é o melhor – ironizou a mãe. – O melhor no quê? Em desumanizar? – Ela respirou fundo. – Não importa. Não voltamos lá.
Diego olhava pela janela, com os olhos umedecidos.
– Mãe – disse ele –, por que ele não gosta de cães?
A mãe respondeu, respirando fundo:
– Não é que ele não gosta. Ele só não entende. – Olhou para trás, para mim. – Ele não sabe o que você significa.
O pai completou:
– Algumas pessoas acham que sabem tudo. Estudam, leem, operam… mas esquecem de sentir. – Balançou a cabeça. – E isso é triste, porque a medicina sem amor não tem valor.
No caminho de volta, pensei em tudo o que ouvira. Percebi que existem pessoas que têm coração, mas o guardam em um cofre. Pessoas que veem o mundo em preto e branco, sem as nuances que tornam tudo mais bonito. Percebi que, talvez, o doutor não entendesse o amor porque nunca o sentiu como nós. Talvez tivesse medo. Talvez tivesse sido ferido e construído uma armadura. Ou talvez achasse que sentimentos são fraquezas. De qualquer forma, senti pena. Não raiva, não desdém, mas pena. Pena por ele não saber o que é ser lambido quando se chora, não saber o calor de um abraço de um cachorro, não saber que um uivo pode salvar.
O encontro inesperado
Dois meses se passaram. Continuamos com outro médico, mais humano e gentil. Diego fez progressos. A mãe ficou melhor, o pai também. Eu continuei fazendo o que sempre fiz. Mas o universo tem uma maneira curiosa de ensinar e reapresentar pessoas. Numa manhã de sábado, estávamos no parque. A grama estava verde, o lago, calmo. As crianças corriam. Eu e Diego jogávamos bola. O cheiro de pipoca, churros e protetor solar era forte. O sol brilhava, mas havia uma brisa agradável.
De repente, ouvi um grito. Um grito de dor. Um grito de pavor. Olhei para a direção. Era um senhor de terno, caído no chão, segurando o peito. O rosto estava vermelho, suando. Ao seu lado, um menino chorava, sem saber o que fazer. Alguns curiosos se aproximaram. Uma mulher ligou para a ambulância. Fui até lá. O cheiro de perfume caro se misturava ao cheiro de suor, álcool e medo. Reconheci aquele perfume. Era o médico que não entendia o amor.
Ele gemia, segurando o peito. Olhos arregalados. Seus dedos apertavam a grama. O filho, com uns seis anos, chorava, desesperado:
– Papai! Papai!
As pessoas ao redor tentavam ajudar, mas estavam perdidas. Eu me aproximei. Senti o cheiro dele mais forte. Estava com sintomas de infarto. O garoto olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas, e segurou meu pescoço, como Diego fazia. Eu o lambi, para acalmá-lo. O pai olhou para mim, surpreso. A esposa do médico, com lágrimas nos olhos, sussurrou:
– Ajuda! – Eu não tinha como medicar, nem como operar. Mas tinha algo. Olhei para Diego, que me olhava de volta. Ele disse:
– Sombra, ele precisa.
E, naquele instante, sem pensar, me deitei ao lado do médico. Toquei sua mão com minha pata. Olhei em seus olhos e lambi seu rosto suado. Ele gemeu. Mas, ao sentir minha língua, sua expressão mudou. Foi como se, por um segundo, sua dor fosse menor. Ele fechou os olhos. As sirenes da ambulância se aproximaram. As pessoas se afastaram. Os paramédicos chegaram, levaram-no rapidamente. Eu me afastei, olhando.
O menino, soluçando, abraçou a minha cabeça, ainda chorando:
– Obrigado, cachorrinho. – E repetia: – Papai vai ficar bem?
Eu lambi seu rosto. O pai de Diego aproximou-se, colocando a mão no ombro do menino:
– Ele vai ficar bem. – E olhou para mim. – Você é incrível, Sombra.
O médico reencontrado
Algumas semanas mais tarde, estávamos novamente no consultório do nosso médico gentil, fazendo fisioterapia. Terminando a sessão, ao sairmos para o corredor, vimos um rosto familiar: o médico que não entendia o amor. Não estava de jaleco. Vestia roupas comuns. Estava sentado em uma cadeira da recepção. Parecia mais magro. Seus olhos, antes frios, estavam cheios de algo que eu não reconhecia à primeira vista. Ele nos viu. Eu, Diego, o pai e a mãe. Seus olhos se encheram de lágrimas. Levantou-se devagar e caminhou até nós.
– Posso falar com vocês? – perguntou, a voz quebrada.
O pai assentiu. O médico respirou fundo. Seus olhos estavam avermelhados. Falou com dificuldade:
– Eu… – hesitou. – Eu devo um pedido de desculpas. – Olhou para mim. – E um agradecimento.
A mãe, surpresa, perguntou:
– Aconteceu algo?
Ele fechou os olhos por um momento e respirou fundo, como quem busca coragem.
– Naquele dia, fui grosseiro. Eu não entendi. Fui arrogante. Eu… – engoliu em seco. – Eu pensava que o amor atrapalhava a ciência. Eu achava que sentimentos eram inimigos da lógica. – Olhou para o pai. – Mas, há algumas semanas, tive um infarto no parque. – Suas mãos tremiam. – Eu caí no chão. Senti que estava morrendo. – Pausa. – E, de repente, senti algo quente no meu rosto. – Olhou para mim. – Foi a língua desse cachorro. – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu nunca tinha sido lambido por um animal, não daquela maneira. Eu sempre achei que era nojento. Mas, naquele momento, aquilo me deu esperança. Não sei explicar. Só… relaxei. Senti que não estava sozinho. – Ele limpou uma lágrima. – Fui salvo. E meu filho ficou abraçado nele. – Olhou para Diego. – Esse cachorro, que eu disse que não podia entrar no meu consultório, salvou minha vida. – Soluçou. – E eu… eu vi o medo nos olhos do meu filho. Vi que ele precisava de mim. Entendi que o amor não atrapalha; o amor salva.
Nós o observávamos em silêncio. Diego segurava minha coleira, emocionado. O pai respirou fundo. A mãe enxugou uma lágrima.
– Doutor… – ela disse, gentilmente. – Fico feliz que esteja bem.
– Estou. – Ele assentiu. – E estou envergonhado. Quero pedir perdão por ter maltratado vocês. – Olhou para Diego. – E quero pedir, se vocês me permitirem, que Sombra entre no meu consultório, se um dia voltarem. – Sorriu, tímido. – Eu… gostaria de conhecê-lo melhor.
O pai sorriu, emocionado. Olhou para mim e disse:
– Acho que ele aceita. – E, virando-se para o médico: – Sabe, doutor, todos estamos aprendendo. – Estendeu a mão. – O importante é reconhecer. – Apertou a mão do médico.
O médico se inclinou, ajoelhou-se e me acariciou. Suas mãos estavam frias, mas senti a sinceridade. Ele disse:
– Desculpe, Sombra. – E sorriu.
Eu lambi sua mão. Senti o gosto de remédio, de suor e de tristeza. Mas também senti algo novo: humildade. Ali, na minha frente, estava um homem que antes não compreendia e que agora estava disposto a aprender. Era a prova de que não importa quanto sabemos, sempre há algo a sentir.
Reflexões finais
O médico que não entendia o amor aprendeu uma lição que não está nos livros de anatomia, nem nas aulas de fisiologia. Aprendeu que curar não é apenas medir pressão, prescrever remédios ou operar. Aprendeu que existe a medicina do afeto, do toque, do olhar. Aprendeu que cães podem salvar vidas de maneiras que o estetoscópio não capta. Aprendeu que, para nos curarmos, precisamos nos permitir ser frágeis, aceitar ajuda, reconhecer erros.
Para mim, Sombra, essa história reforçou algo que venho aprendendo: nossos gestos, por menores que sejam, podem reverberar. Um latido, um uivo, uma lambida, uma corrida – tudo isso carrega amor. E o amor tem o poder de quebrar o gelo mais espesso. Ele derrete a arrogância, abre portas, salva vidas. Às vezes, precisa de um desmaio, de um corte, de um vômito, de uma crise respiratória para que percebamos sua importância. Às vezes, precisa de um infarto. O importante é que percebamos.
Hoje, quando Diego volta do médico que agora aceita o amor, me lembro daquela manhã em que fomos rejeitados. Lembro-me de como me senti inútil. Lembro-me do olhar frio do doutor e do tremor em suas mãos quando quase morreu. Lembro-me da língua no seu rosto e do filho dele chorando. Lembro-me de que o amor não tem diploma, não tem jaleco, não tem certificado. O amor é cheiro, é toque, é uivo. E, enquanto houver amor em nós, haverá cura.
Que esta história fique para todos que, como o doutor, ainda não entendem o amor. Que possamos abrir o coração, como abrimos portas, para permitir que o inesperado nos transforme. E que, quando nos perguntarem se o amor atrapalha ou ajuda, possamos dizer: "O amor salva."
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