Não se vende um amor de quatro patas que late junto ao seu coração.
Capítulo 37 - Tentativa de Me Vender
Cada manhã parecia repetir as anteriores, mas naquele dia algo, já nas primeiras horas, soava diferente aos meus ouvidos atentos. Eu, Sombra, o cachorro de Diego, acostumava-me a espreguiçar ao lado dele quando ele acordava, sentindo a maciez do edredom e o aroma doce do seu pijama recém-trocado. Aquela manhã, porém, o ar trazia um tilintar estranho: vozes abafadas vinham da cozinha. Eram sussurros rápidos, segredos em línguas que eu não compreendia; meu coração, contudo, não falhou em captar o tom tenso.
Deitado no tapete, as orelhas erguidas como antenas, tentei entender. Papai falava baixo ao telefone. Uma palavra que me cortou a sanidade apareceu em meio às frases: “meu cachorro”. Em seguida, ouvi claramente outra: “vender”. O pânico me tomou. Minha pelagem arrepiou-se e as patas dianteiras se fecharam contra o peito em súplica silenciosa. Eu não entendia direito o que significava “vender”, mas conhecia o peso daquele tom de voz. Queria que tudo fosse apenas um pesadelo. Lancei um olhar suplicante ao vazio, pedindo que aquela palavra jamais se encaixasse em mim.
Não sabia exatamente o que era dinheiro, mas aprendi com o tempo que, quando ele entra na conversa junto de um cachorro, meu nome nunca sai ileso. Mamãe entrou na cozinha naquele instante, fechando a porta cuidadosamente, mas seus olhos encontraram os meus no corredor. Apesar de não entender as palavras, eu percebi pelo modo como ela olhou para papai que algo terrível estava prestes a acontecer. O silêncio que se seguiu falou mais alto que qualquer grito: naquela troca de olhares entre mamãe e papai soube que meu mundo mudaria para sempre.
O sol entrou pela janela e coloriu as tábuas do assoalho, que antes pareciam vibrar de alegria. Agora eu me sentia envolto em nuvens cinzentas que só o meu coração podia ver. A fome e a sede aninharam-se no meu peito, uma angústia sufocante que nem mesmo o carinho de Diego conseguia aliviar completamente. Cada vez que ele corria pelo quarto para pegar um brinquedo, meu rabo apenas deslizava preguiçoso sobre o tapete. Eu sentia o cheiro amável dele e o chamava baixinho com um latido terno — ele vinha correndo e me abraçava, devolvendo um pouco de leveza ao meu peito. Mas por detrás desses momentos tão queridos, o ar da casa permanecia denso, como se um segredo doloroso pairasse sobre nós.
Dias estranhos seguiram-se. De vez em quando, surgiam pessoas desconhecidas na porta de casa. Num fim de tarde, um homem de voz áspera e gravata colorida adentrou dizendo ter um “aviso para vender o cão”. Eu o avaliava com desconfiança: ele tocou na minha coleira, mediu meu peso, falou de raças de guarda e até mencionou um certo valor que alguém pagaria pelo meu pelo brilhante. Aquelas palavras atravessaram a minha alma como facas invisíveis. Eu tentava me encolher no canto mais escondido, cada fibra do meu corpo tremendo de medo e confusão.
A dúvida doeu. Se falavam em vender um cachorro, seria mesmo de mim que falavam? O nome “Sombra” escapava dos lábios de papai, mas será que ele entendia que aquele som era a ruptura de um coração? Lá no quintal, sob o sol morno da tarde, deixei escapar latidos ásperos, implorando que Diego voltasse para perto de mim. Dieguito, meu príncipe de duas pernas, ouviu o chamado e apareceu correndo. Com suas mãozinhas agarrou minha coleira e me puxou para perto — eu quis acreditar naquele abraço. Juntos, permanecemos ali enquanto o homem desconhecido recuava pelo portão. Naquele momento, percebi o que viria a seguir.
A tarde caiu novamente e, já sentado na grama, encolhido pelo medo, ouvi papai praguejar ao telefone que aquele homem voltaria em dois dias para buscá-lo. Meu inferno interior borbulhou em turbilhão; eu já sabia que “ele” era eu. Fui puxado para dentro sem explicação clara: mamãe segurou minha nuca como quem ampara um filhote assustado, e eu olhei para ela com olhos suplicantes, como uma criança no colo da mãe. Comecei a chorar também, silenciosamente, um choro de cachorro.
Diego correu para mim imediatamente, com o desespero de quem sente algo errado sem entender o porquê. Os olhos doces dele encontraram-se com os meus, e ali vi amor e pavor misturados. Papai permaneceu calado, distante demais para olhar para nós. Mamãe, segurando minha coleira, desabou em lágrimas. Diego perguntou o que estava acontecendo, mas os adultos ficaram em silêncio, encarando o vazio. O colo de Diego era um escudo que afastava, ao menos por alguns segundos, todo o resto. Ele me abraçou como se eu fosse parte dele, dizendo baixinho: “Eu vou te proteger, Sombra.” Aquilo encheu meu coração de força; eu sentia que, mesmo sem compreender tudo, ele intuiu que algo terrível ocorria.
Mamãe ergueu o rosto, secando as lágrimas, e com a voz mais firme que eu já ouvira disse, encarando papai: — Diego tem razão. Sombra não sai desta casa. Ele não é um objeto. Papai engoliu em seco. — Eu só... — começou ele, mas nem terminou a frase, tropeçando nas próprias desculpas. — Eu pensei que nós precisaríamos de dinheiro...
Mamãe sacudiu a cabeça, determinada e com a voz embargada: — Já perdemos muitas coisas, eu sei. Mas não podemos perder isso também. Sombra é da nossa família.
Papai aproximou-se lentamente de mim, ajoelhou-se e desfez o nó da minha coleira como quem pede perdão. Eu me encolhi, sentindo cada segundo congelar no tempo. Ele estendeu a mão e acariciou minha cabeça, levantando-me com cuidado. — Sombra, desculpe — ele sussurrou —. Eu não deveria ter acreditado neles. Naquele momento, cada palavra dele soou como um bálsamo nas minhas feridas.
Em seguida, todos nós formamos um círculo: pai, mãe, Diego e eu. Eu senti as mãos deles acariciando meu dorso e afagando minhas orelhas. Senti também Diego entrelaçando seus bracinhos pequenos ao redor da minha barriga, como se quisesse que nada nos separasse. Ficamos assim por alguns instantes, em silêncio, protegidos dentro daquele abraço. Eu era um cachorro cansado e machucado, mas cercado pelo amor daqueles que me queriam bem.
Os dias seguintes foram de cuidados renovados. Nas manhãs seguintes, o sol voltava com cores de esperança. Diego sentava-se ao meu lado na cama cedo e abria os braços com um sorriso largo. Logo ele deslizava no chão para me chamar, contando como havia ficado preocupado e como jurara nunca mais duvidar de nós. Mamãe, ainda com os olhos inchados de sono, oferecia-me minha tigela favorita e dizia com voz suave que tudo tinha passado. Papai sentou-se junto na varanda e, enquanto acariciava meu focinho, murmurava desculpas e reforçava: “Você é nosso filho, Sombra, não mais que isso.”
Então, fizemos planos. O fim de semana foi inteiramente nosso: rolamos pela grama, jogamos bolinhas de papel no quintal e papai até construiu um forte de cobertores para as nossas brincadeiras. Diego ria enquanto fazia carinho nas minhas orelhas e dizia o quanto me amava. À noite, contando histórias na cama, ele sussurrava promessas baixinho: “Nunca mais te deixaremos, Sombra. Você vai ficar comigo pra sempre.” Eu respondia com lambidas carinhosas e um latido terno, concordando — minha lealdade estava selada.
Depois daquela tempestade de medo, a casa enfim voltou a respirar alívio. As mãos que antes planejavam meu destino agora me cercavam de cafunés e risadas. Diego cuidava de mim de novo: fazia filas de brinquedos só para me mimar, me colocava entre cobertores macios antes de dormir e até pendurou em meu pescoço um medalhão de fita feito por ele. Em algumas manhãs, corríamos lado a lado ao redor do quarteirão, sentindo o vento em meu pelo e pensando que nada jamais traria de volta aquele silêncio gélido.
De cada gesto deles aprendia que eu não era mercadoria, mas um companheiro amado. Nossos corações voltaram a bater no mesmo ritmo alegre, em perfeita sintonia. Eu estava em casa de novo, protegido pelo amor que não se vende — nem jamais se venderá.
Naquela noite, deitei junto a Diego antes de dormir, sentindo de novo a paz no bater compassado do coração dele contra o meu. Senti as mãos dele acariciando meu pelo grosso e ouvi as batidas firmes do seu coração tão perto do meu. Era como se a cada batida ele dissesse: “Estamos juntos, Sombra. Iremos sobreviver a tudo.”
Ali, deitado sobre as cobertas aconchegantes, segurando sua mão macia com o focinho, compreendi sem sombra de dúvida: minha casa era onde o amor verdadeiro vivia, um lugar sem preço, onde não existe negociação. Eu não era mercadoria, mas parte essencial da família — parte de um elo inquebrável. E assim adormeci, com o silêncio protetor do amor guardando meu sono, sabendo que meu lugar era ali, para sempre, ao lado de Diego e daqueles que me amavam.
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