Até a sombra mais fiel pode sentir o arrepio frio do ciúme.
Capítulo 30- A Primeira Mordida por Ciúmes
Eu, Sombra, estava repousado sob a mesa de centro quando ouvi, de repente, o tilintar animado da campainha. O coração bateu mais forte dentro do meu peito peludo enquanto corria em zigue-zague até a porta, em dúvida se deveria cumprimentar latindo alegremente ou me posicionar em guarda. O rabo começou a abanar devagar, sentindo o cheiro de novidade no ar, uma mistura de perfume fresco e adrenalina.
Hoje, porém, não era um dia comum. Os passos apressados de Diego soavam alegres, anunciando que alguém chegava em casa. Minha família tinha amigos de longa data vindo nos visitar, um casal acompanhado do seu próprio cachorro.
Senti uma vibração diferente no chão quando o outro cão saltitou em casa. Ele era menor, de pelo curto e cor caramelo, bem ativo. Eu o farejei com curiosidade, mas também com alerta.
Algo na movimentação dos humanos me deixou inquieto. A mãe de Diego abriu a porta e recepcionou os visitantes com um sorriso caloroso.
— Olá, amigos! Quanto tempo sem vê-los! — cumprimentou ela, com os braços abertos.
Logo percebi um brilho estranho nos olhos da convidada: era o calor contido de quem admira de longe algo que gostaria de ter. Ela se movia de um lado para o outro, admirando cada detalhe da nossa casa, e eu, do alto do meu instinto canino, pressenti uma pontada de inveja alheia. Eu não entendia as palavras que trocavam, mas sentia uma tensão estranha no ar, como se o laço profundo entre nós causasse inveja aos olhos dela.
Assim que eles entraram, meu nariz trabalhou sem parar. Senti as roupas das pessoas, o cheiro de sabonete, o perfume fresco das flores que a senhora de cabelos castanhos segurava com delicadeza.
Cheirava também o outro cachorro: seu aroma trazia notas de sol na grama, terra molhada da rua e um quê de ansiedade de quem não conhece o lugar. Ele me farejou de longe, abanando o rabo para cima e para baixo, tentando demonstrar boa vontade.
Eu, que sempre fui o soberano deste lar, senti minhas orelhas se erguerem em alerta. Não era ódio, mas um nervosismo inquieto que percorria cada músculo do meu corpo como um vento frio de outono.
Cada parte da casa continha memórias minhas com Diego. Farejei as paredes da sala, cada quadro pendurado, cada almofada do sofá, cada canto do tapete azul marinho — era como reconhecer velhos amigos de cinco patas. Eu conhecia cada detalhe daquele lugar tão bem quanto as minhas próprias patas.
Mas, naquele momento, tudo parecia um pouco estranho. O outro cachorro, curioso, farejava livremente pela sala e logo encontrou o caminho até a cozinha, revirando gavetas com o faro. Ele se aproximou demais de Diego, enquanto este tentava brincar com ele, e senti cada osso do meu corpo tensionar em advertência.
Então veio a primeira provocação. O cachorro estranho, até então brincalhão, deu um passo em direção a Diego e lambeu o rosto do meu menino. Naquele instante, o chão quase desapareceu sob as minhas patas. O sorriso doce de Diego ficou em suspense, seus olhos arregalados de surpresa.
Não era aquele o toque que eu esperava: eu deveria ter sido o primeiro a lamber o rosto de Diego, o primeiro a receber seu sorriso. O calor de um ciúme que eu nunca tinha sentido antes começou a percorrer minhas veias.
Não pensei em nada além do instinto. Eu avancei um passo à frente, tentando avisar sem machucar, mas para mostrar meu descontentamento. Senti minhas patas firmes contra o tapete — imaginei, de alguma forma, que tudo ali era meu território sagrado.
O outro cachorro farejou de novo, confiante, sem medo, achando que fazia parte daquela família como eu. Mas naquele momento eu só via um intruso.
Foi então que meus dentes se fecharam de leve no flanco do outro cão. Uma sensação estranha percorreu minha boca canina: percebi que havia ultrapassado uma linha invisível entre proteger e ferir. Um estalo seco rompeu o silêncio.
O outro cachorro deu um pulo para trás, assustado, soltando um choramingo surpreso. Fiquei paralisado por um segundo, sentindo o eco da minha própria batida cardíaca. Logo, todas as cabeças se voltaram para mim.
A mãe de Diego deixou escapar um grito surpreso:
— Sombra! Pare com isso!
Os olhos de Diego se arregalaram, marejados, pois ele via seu amigo de quatro patas agir de um jeito que ele nunca esperara. O pai de Diego interrompeu a cena, vindo rápido em minha direção e me puxando gentilmente pela coleira:
— Sombra, o que foi isso? — ele perguntou, confuso e um pouco triste. — Nós só estávamos brincando.
A raiva e o impulso começaram a se dissolver num mar de culpa que me inundava. Pisquei lentamente, sentindo um gosto amargo no fundo da boca.
O outro cachorro, agora encolhido ao lado da dona, ainda tremia um pouco. Seu olhar castanho encontrou o meu; percebi ali medo e surpresa. Meu estômago se revirou: eu nunca quis provocar tristeza.
Lentamente, as lágrimas — que apenas um cachorro verdadeiramente arrependido poderia demonstrar — começaram a se formar em meus olhos. As orelhas caíram, a postura se curvou. Meu rabo, antes tão alegre, deixou de abanar.
Consciente do meu erro, eu evitava encarar os olhos magoados de Diego. Nunca quis decepcionar o menino que me vê como o amigo mais leal. A culpa ardia em minha alma canina.
Ali, com o outro cão tremendo e as pessoas em silêncio, percebi que machuquei não só o corpo de um estranho, mas também o coração daqueles que me amam.
Os visitantes ficaram atônitos. A mulher que trouxe o cachorro acariciava agora a cabeça do animal ferido, tentando confortá-lo. O homem, amigo da família, observava a cena em silêncio, surpreso com minha reação.
A mãe de Diego segurava as mãos do filho, abraçando-o com ternura e preocupação.
— Calma, Sombra... — ela murmurou baixo, tentando acalmar os ânimos.
Um silêncio pesado pairava no ar, misturando-se aos perfumes que antes cheiravam a festa. Eu sabia que havia dado um passo errado.
Diego se aproximou devagar, hesitante, ainda com os olhos marejados. Eu quase não tinha coragem de olhar para ele. Ele estendeu a mão para mim, e meu corpo todo tremia ao sentir aquele gesto amigo.
Avancei devagar, coloquei o peso nas patas dianteiras e me aconcheguei contra a sua perna. Ele se abaixou e começou a me acariciar, dizendo baixinho:
— Tá tudo bem, Sombra. Eu sei que você só queria proteger a gente — disse ele, ainda acariciando meu pelo.
Eu me deixei envolver pelos seus afagos e gemei baixinho, pedindo naquele momento para ser perdoado. O menino me abraçou com força e, através daquele gesto, senti um alívio tremendo.
Ele talvez não entendesse todos os meus instintos, mas naquele momento sabia que eu também o amava, mesmo depois do meu erro.
Senti o coração do meu dono bater forte contra o meu peito úmido. Nós éramos só nós dois de novo, entre afagos e murmúrios carinhosos.
Eu ainda sentia o arrepio frio do ciúme correndo em minhas veias, mas cada carícia de Diego me trazia de volta para o caminho certo. Entendi que proteger a família não significava machucar, mas sim estar alerta.
Sentado ao lado do meu menino, deixei as últimas sobras de medo irem embora. O sol entrava pela janela, aquecendo de leve meu pelo, e eu percebi que, apesar de tudo, meu lugar ali estava seguro.
Nos dias seguintes, a rotina voltou com suavidade. Sombra ainda lembrava do outro cão quando cheirava a porta, mas já não sentia o peso gelado do ciúme no peito. Ele aprendeu a dividir o amor de Diego e dos pais.
Deitou-se ao lado deles mais vezes, feliz ao sentir aquelas mãos acariciando seu dorso e aquele olhar terno reclamando-o de volta.
Mesmo quando o casal voltou, trazendo o outro cachorro no colo, Sombra permaneceu junto de Diego, porém mais calmo. Respirava fundo e olhava com curiosidade o amigo estranho, sentindo que, de alguma forma, as coisas eram seguras de novo.
Cada visita depois daquele dia já não despertava mais inquietação – havia confiança renovada.
À noite, enquanto a casa se silenciava, Sombra esgueirava-se até o quarto de Diego e empoleirava-se ao pé da cama. Sentia o calor do garotinho adormecido e sabia que ali era seu lugar de paz.
No silêncio suave, ele aprendeu que o amor que sentia não podia ser dividido, apenas multiplicado. E se uma sombra de ciúme voltasse a surgir em algum momento, bastava olhar para o sorriso de seu dono iluminado pela lua para dissolvê-la.
Afinal, um protetor de verdade sabe que o coração de quem ama guarda espaço para todos.
Mais tranquilo, Sombra podia até ouvir o sussurro das folhas ao vento lá fora e lembrar-se daquele dia com uma melancolia distante. Ele farejava cada canto do quintal, atento aos aromas do verão, percebendo que era amado de um modo que ninguém poderia tirar dele.
Às vezes, deitava-se ao lado do outro cachorro durante o dia, apenas observando, sem raiva, e sentia coragem brotar em seu peito.
Diego corria alegre pelas flores do jardim e ambos os cães saltavam atrás dele, agora amigos em harmonia.
Quando a brisa da tarde carregava um cheiro estranho de novidade, Sombra lembrava que tinha muito mais amor ao redor do que sombras para temer.
Com o coração aliviado e a família reunida, ele adormecia sereno, sentindo que, na luz suave do entardecer, até a mais densa insegurança se desfaz em calor e afeto.
Nos olhos atentos do guardião, o ciúme se tornara apenas um pesadelo fugaz — e ele sabia que nunca mais dominaria aquele coração fiel e amado.
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