"Todo passo incerto do menino ecoa como poesia suave no coração do cão que o ama."
Capítulo 29 - A Primeira Sessão de Fisioterapia
Acendeu-se o dia em luz tímida quando senti algo diferente no ar. Os passos apressados da família ecoavam pela casa ainda adormecida. Mãe falava baixo, Pai sussurrava palavras que eu não entendia, mas percebia a urgência no tom de suas vozes.
Meus pelos se eriçaram instintivamente: pressenti que algo havia mudado. Mesmo sem compreender o significado exato, reconhecia ali o cheiro do medo — uma mistura de preocupações que todos carregavam.
O cheiro forte do café se misturava à ansiedade, enchendo cada canto do corredor com um aroma inquieto. Meu focinho latejava enquanto tentava capturar todos os cheiros novos — o perfume suave da mãe, o hálito do pai, o nervosismo diluído no ar.
Meu instinto já sussurrava que algo não estava certo. O corpo miúdo do nosso menino tremia sob o xale macio que o envolvia, e naquele instante eu soube: algo grande estava para acontecer.
Pude até captar o travo salgado na respiração da mãe, um prenúncio silencioso das lágrimas que iriam cair. Senti algo estranho no ar mesmo antes do café ser passado; já adivinhava que aquele não seria um dia comum.
Quando a porta da frente se abriu, acompanhei-os até o carro. Meu nariz arrepiou-se com a brisa fria, e firmei minhas patas no chão, tentando passar alguma segurança naquele momento, mesmo sentindo a adrenalina percorrer meu corpo.
Senti o frio da manhã no cimento sob minhas patas, em contraste com o calor do cobertor que envolvia nosso menino no banco traseiro. A mãe ajeitou a cadeirinha dele, conferindo cada cinto de segurança, enquanto o pequeno lançou-me um olhar cheio de incerteza.
Mesmo sem entender exatamente o que acontecia, decidi acompanhá-los com todo o cuidado do meu coração de cão. Deitei-me a seus pés, estendendo meu corpo quente para aquecê-lo.
Meu coração de cão batia mais forte do que o motor, mas procurei controlar minha respiração para não transmitir nervosismo ao menino. Dentro do veículo, os cheiros se misturavam — borracha quente do motor, café derramado no porta-copos, e a tensão silenciosa que precede um momento importante.
Fechei brevemente os olhos para não deixar transparecer toda a minha ansiedade, mas cada movimento dele me deixava alerta. De vez em quando, o pequeno roçava a mão no meu pelo, buscando conforto, e eu transmitia de volta toda a calma possível.
Em meu corpo canino, cada músculo estava tenso, pronto para qualquer desafio que pudesse surgir. Quando paramos em frente ao prédio da clínica, um novo aroma tomou conta do meu olfato.
Ao sair, posicionei minhas patas firmes no chão frio e olhei em volta, inquieto diante do tamanho daquele prédio. O garoto deixou o carro com calma, cada passo hesitante preenchido por um frio estranho na barriga.
Vi-o segurar a coleira com força e, antes de sair, lançar-me um olhar de quem pedia coragem. Com delicadeza, ele acariciou meu focinho como quem sussurra: estou com medo.
Em minhas narinas, sentia o cheiro daquela rua de sempre, mas agora parecia estranhamente novo, como se víssemos o mundo de um ângulo diferente. No meu peito, o coração dele tamborilava acelerado; o ritmo se espalhava por todo o meu corpo, como se soubesse que algo grande estava prestes a acontecer.
Tive vontade de farejar tudo ao nosso redor, mas segurei minha curiosidade para focar nele. Assim que atravessamos a porta de vidro, um novo perfume tomou conta do ar — a mistura fria de limpeza e nervosismo.
Pisamos num corredor amplo; o ranger suave da porta ao se fechar fez meu corpo tremer levemente, mas o calor do menino ao meu lado me reconfortava. Notei o cheiro das cadeiras estofadas e do piso encerado.
Nossa fisioterapeuta apareceu em seguida, com um jaleco branco que parecia uma bandeira de esperança. Ela sorriu ao ver que eu estava ali e me agradeceu com um afago suave na cabeça.
Eu me sentei firme ao lado dela, determinado a não me afastar nem por um segundo, compartilhando cada respiração de coragem. Senti o peso do meu corpo relaxar um pouco, encorajado pelo seu tom amável.
Um instante de paz pairou sobre mim, e minha mente voou para outra lembrança distante: por um instante, pensei ter ouvido pássaros cantando à distância. Eu o via correndo no parque, há alguns meses, rindo despreocupado enquanto eu abria o passo para acompanhá-lo.
Naquele tempo, éramos só nós dois e uma bola amarela, e nada do que era difícil parecia possível. Agora, naquele lugar estranho, aquelas imagens pareciam de um sonho antigo.
Ainda assim, percebi o mesmo brilho em seus olhos — a certeza muda de que ele sabia que jamais caminharia sozinho. Aquele instante dourado acalmou meu coração; eu sabia que estávamos juntos em todas as fases desta jornada.
Antes de o menino subir na maca, percebi outros detalhes da sala: bolas coloridas, rolos de espuma espalhados pelos cantos, e barras paralelas baixas encostadas à parede, promessas mudas de que, um dia, ele voltaria a caminhar.
O garoto subiu com cuidado na maca acolchoada e eu deitei-me aos seus pés, mantendo meus olhos fixos em cada gesto dele. A fisioterapeuta falou suave, pedindo que respirasse fundo enquanto começava a aumentar a intensidade dos exercícios.
Sentei-me ereto, atento às pequenas variações em seu corpo — o tremor leve nas mãos, a contração dos músculos quando ele tentava se apoiar. Em meu olfato, percebi o odor quente do suor dele, e em meu coração uma mistura de tensão e orgulho, pois cada mínimo avanço estava sendo conquistado ali.
Eu permaneci atento ao menor movimento, cada som de sapato ou murmurinho humano me dizia que aquele lugar era seguro. — Agora, Diego, levante essa perna com força — ouvi a fisioterapeuta encorajando.
Vi o rostinho do garoto franzir-se de esforço; ele contraía cada músculo da perna, como se cada centímetro conquistado trouxesse de volta um pedaço de confiança. Dei um passo adiante e encostei a cabeça na coxa dele, compartilhando meu calor e tentando transmitir, com o toque silencioso, todo o apoio que sentia.
Também estendi uma pata dianteira e pousiei-a suavemente no pé dele, como se quisesse emprestar-lhe um pouco da minha força. Naquele instante, era como se nossa amizade inteira sussurrasse: siga em frente, estou com você.
Meu coração de cão queria saltar de alegria naquele momento. Fiquei ali quieto, mas com cada batida dele eu vibrava silêncio e coragem. Eu só queria afastar dali toda aquela dor, substituindo-a por nossas brincadeiras e cheiros familiares do parque.
Quando o menino ergueu a perna um pouco mais, um misto de euforia e alívio tomou conta do lugar. A fisioterapeuta esboçou um sorriso discreto, e aquela pequena vitória brilhou aos meus olhos como se fosse a mais importante do universo.
Eu sentia cada pequena vitória como se fosse minha, e naquele momento todo alívio contido parecia ser compartilhado. O pai do menino prendeu o ar nos pulmões e depois soltou numa expressão de orgulho contido, enquanto a mãe enxugava uma lágrima tímida de felicidade.
Eu então me ajoelhei ao lado dele, encostei minha cabeça em seu joelho e senti o hálito quente do seu sorriso. No silêncio daquele encontro de olhos, soube que a ligação entre nós ficara ainda mais forte — uma promessa silenciosa de caminharmos juntos por todos os dias que viriam.
Depois da sessão, todos se reuniram ao redor dele. A fisioterapeuta sorriu e acariciou o ombro do menino, elogiando cada esforço dele com palavras ternas.
Nesse instante, até eu senti a tensão se desfazer: a mãe sorriu para mim e passou a mão no meu pelo, me incluindo naquele momento de glória, como se fôssemos uma só família.
O pai apertou os olhos, como se lutasse para conter as lágrimas, e a mãe apertou as mãos dele com tanta ternura que senti até o tremor de seus dedos.
Fiquei ali, quieto, testemunha do carinho de dois mundos — o humano e o meu — que se uniam em afagos e palavras de incentivo. As mãos dele tremiam levemente contra mim, e eu sentia cada batida do seu coração, determinado a ser abrigo mesmo em silêncio absoluto.
Aquela noite voltando para casa foi diferente. Eu deitei minha cabeça no colo do nosso menino, ainda envolto no cobertor da manhã, e senti sua respiração finalmente tranquila.
A janela aberta deixava entrar o cheiro da rua iluminada pelo pôr do sol, e pude perceber que até o ar parecia mais leve depois do que havíamos vivido.
Por um instante, tudo ao nosso redor foi paz: os quilômetros se desenharam silenciosos enquanto eu prometia, no calor do seu corpo, que ele nunca enfrentaria nenhum caminho sozinho.
O carro seguia em silêncio; a cidade dormia lá fora e só o leve ronronar do motor embalava nossas respirações tranquilas. Ele fechou os olhos de leve, com uma mão repousada no volante, e por entre os poucos quilômetros restantes senti a energia vibrante daquele dia transformando-se em pura paz.
O mundo ao redor parecia adormecer lá fora, deixando só eu e ele respirando juntos, conectados por esta fé recém-descoberta. Naquela promessa silenciosa, nascida no balanço suave do carro, havia muito mais do que palavras.
Havia a certeza de que dali em diante, cada desafio seria enfrentado com coragem redobrada. Eu, Sombra, estaria ali, ao lado de Diego — leal, firme, pronto para ser abrigo e força.
Nesta nova jornada, nossos passos seguem juntos, embebidos de esperança e amor incondicional. E eu me sentia preenchido de um amor leal, que transcendia tudo que já conhecera.
Mais tarde naquela noite, o silêncio reinou absoluto em casa. Eu me encolhi aos pés do nosso menino, aquecendo-o como havia feito o dia inteiro, e ele finalmente dormiu em paz.
Por entre sonhos silenciosos, revivemos cada gesto de carinho daquele dia: o afago suave de uma mão, um sorriso tímido de vitória, o brilho confiante nos olhos dele.
Na manhã seguinte, acordei com seu pequeno dedão tocando levemente meu pelo e soube, de novo, que cada novo dia seria uma chance de caminharmos juntos.
Sabíamos, sem precisar de palavras, que ali se definia quem seríamos dali em diante. E, juntos, enfrentaríamos cada passo do caminho com amor.
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