E o silêncio descobre que pode embalar alguém
Capítulo 9 - Quando o Olhar é o Único Abraço
A manhã nasceu com aquele tipo de luz que não invade — se insinua. Entrou pelas frestas da cortina do quarto de Diego como se pedisse licença, tocando primeiro a quina da cômoda, depois o braço da poltrona, até alcançar a borda da manta azul que o cobria. Sombra já estava acordado, sentado ao lado da cama, observando o rosto do menino como quem vigia um jardim raro: não se toca, não se mexe, só se protege.
O relógio marcava pouco depois das seis quando Marisa entrou, trazendo o cheiro de café e pão fresco. Ela se aproximou sem fazer barulho, mas Diego já a tinha percebido. Não pela visão — ele ainda olhava para o teto —, mas pelo som suave do seu caminhar e pelo perfume que, de algum jeito, sempre chegava antes dela.
— Bom dia, meu amor — disse, abaixando-se para alinhar o rosto ao dele.
Diego piscou devagar. Esse era o “bom dia” dele — não uma saudação apressada, mas um gesto que carregava o peso de todas as manhãs vividas juntos. Sombra inclinou a cabeça, aproximou o focinho da mão do menino e, sem um som, trocou com ele uma conversa que só os dois entendiam.
Carlos, que vinha logo atrás, encostou no batente da porta e ficou observando. Ele tinha aprendido, com o tempo, que certas cenas não precisam ser interrompidas com palavras. Elas têm um ritmo próprio, e qualquer interferência pode quebrar o feitiço.
— Hoje é dia de treino com a prancha nova — disse Marisa, referindo-se à mesa baixa que Carlos havia construído. — Vamos ver se o “sim” e o “não” ficam mais claros.
Diego desviou os olhos para ela, depois para Sombra, como se pedisse a opinião do cão. Sombra, num gesto quase humano, abanou o rabo duas vezes, firmes, e voltou a olhar o menino. Era um “sim” silencioso — e o primeiro abraço daquele dia aconteceu ali, sem toque, só no encontro dos olhares.
Na sala, a mesa aguardava com os cartões coloridos organizados. O amarelo para “alegria”, o verde para “coragem”, o azul para “calma” e o vermelho para “dor”. Era um código que a família havia criado e que, aos poucos, vinha se tornando um idioma próprio.
Diego foi posicionado diante da mesa. Sombra se sentou à esquerda, na altura dos cartões, como fazia sempre. A presença dele funcionava como um prolongamento da consciência do menino: enquanto Diego olhava, Sombra interpretava.
— Vamos começar devagar — sugeriu Carlos.
O primeiro olhar de Diego foi para o verde. Sombra mexeu levemente a orelha. Marisa sorriu e anotou: “coragem”. Depois, os olhos foram para o amarelo. Sombra deu um resmungo baixo, quase imperceptível. Marisa anotou: “alegria”.
— Alegria e coragem… — murmurou Carlos, como quem lê um poema.
O exercício seguiu por alguns minutos. Então, de repente, Diego parou. Seus olhos se fixaram em Sombra. Não no cartão, não em Carlos ou Marisa, mas no cão. Sombra sustentou o olhar. Não havia pressa, nem distração. Era como se, naquele instante, todo o diálogo se desse apenas pela troca de luz entre pupilas.
Marisa percebeu. — Eles estão se abraçando — disse, emocionada.
E era verdade. Aquele olhar era tão carregado de sentido que dispensava braços. No espaço que se abria entre eles, havia aceitação, cuidado, promessa. Talvez até um pacto secreto: “Eu fico, você fica. Eu entendo, você entende.”
Mais tarde, enquanto Diego descansava, Marisa ficou na cozinha preparando o almoço. Carlos entrou e encostou-se ao balcão.
— Sabe o que me perguntei hoje? — disse, mexendo na caneca de café. — Quantas vezes a gente já abraçou o Diego sem encostar nele?
Marisa pensou. — Muitas. E talvez os melhores tenham sido assim.
— Acho que a gente aprendeu isso com o Sombra — continuou Carlos. — Ele não invade. Ele espera. E quando chega, é no tempo certo.
Marisa sorriu. — Sabe o que é mais curioso? Eu acho que o Diego sente o toque do olhar. Como se fosse pele.
— É pele — respondeu Carlos. — Pele da alma.
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi daqueles silêncios que ficam pesados de significado, como se carregassem dentro tudo o que não cabe em palavras.
No meio da tarde, a terapeuta chegou. Trouxe um exercício novo: um espelho adaptado para ser colocado na mesa, permitindo que Diego visse seu próprio rosto enquanto interagia com os cartões.
— Às vezes, ver o próprio olhar ajuda a reforçar a intenção — explicou.
Diego foi posicionado diante do espelho. No reflexo, ele viu não apenas a si mesmo, mas também Sombra, sentado atrás, com a cabeça ao lado da dele. O menino olhou para a própria imagem, depois para a do cão, e então voltou para o cartão verde. Tocou-o com os olhos.
Sombra, vendo o reflexo do movimento, encostou o focinho na borda da mesa. No espelho, parecia que os dois se encontravam pela testa.
— É isso… — disse a terapeuta, quase sussurrando. — Ele está entendendo que o olhar também é ação.
A sessão terminou, e o sol já começava a baixar. Marisa abriu a janela para deixar entrar o ar fresco da tarde. Sombra foi até lá, colocou as patas dianteiras no parapeito e observou a rua. Diego o acompanhava com os olhos, e cada vez que o cão virava a cabeça, o menino fazia o mesmo.
Era como se fossem reflexos um do outro, conectados por um fio invisível.
Carlos pegou a câmera e registrou a cena. Não para postar, não para mostrar — apenas para guardar. Sabia que, um dia, quando a memória tentasse falhar, aquela imagem teria o poder de lembrar que o amor também pode ser um espelho.
Quando a noite caiu, Marisa preparou a manta de Diego e se despediu com um beijo na testa. Carlos ficou mais alguns minutos no quarto, observando o filho dormir. Sombra, como sempre, permaneceu de vigília ao lado da cama.
— Boa noite, parceiro — disse Carlos, passando a mão no pescoço do cão.
Sombra levantou os olhos e o encarou. E, naquele instante, Carlos sentiu: o olhar dele também era um abraço — não para Diego, mas para ele. Um abraço silencioso, firme, que dizia: “Eu cuido dele. Eu cuido de vocês.”
E foi assim que, naquela casa, eles entenderam de vez: quando o toque não é possível, o olhar se torna o único abraço necessário.
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