Receitas Saudáveis para seu Cão — eBook
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Publicado por Jefferson Peixoto • Página original do produto na Hotmart

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Capítulo 8 - O Silêncio que Uiva

Quando aquilo que não tem som encontra um corpo para falar por nós

Capítulo 8 - O Silêncio que Uiva

O dia começou com o barulho mais discreto que existe: a água batendo na pia enquanto o café descia lento pela garrafa. Marisa, de chinelos e cabelo preso, repetia gestos antigos com uma delicadeza nova, como se cada movimento pudesse abençoar a manhã. No corredor, a luz acesa do abajur formava um caminho morno até o quarto de Diego. Sombra já estava lá — antes do sol, antes de todos — deitado ao lado da cadeira, as orelhas atentas àquilo que não se ouve, mas se pressente.

Quando abriu a porta, ela encontrou o quadro que vinha se repetindo desde que o cão entrou em suas vidas: um menino de olhos imensos e um pastor alemão de olhar ancestral, ligados por um fio invisível. Diego piscou devagar; era o sinal de “bom dia” que eles tinham inventado quando as palavras não chegaram. Sombra levantou, abanou o rabo em meia-lua e encostou o focinho no dorso da mão do menino. Havia uma conversa ali, e ninguém precisava traduzir.

— Hoje é dia de vento — disse Marisa, espiando a cortina que dançava. — E o vento é bom para quem quer aprender a respirar diferente.

Diego reagiu com aquele brilho particular nos olhos. Sombra emitiu um som grave, abafado, quase um ronronar de cachorro que só aparecia em momentos raros. Não era latido. Não era ganido. Era outra coisa — um aviso manso, um “estou aqui” dito de dentro.

Carlos surgiu poucos minutos depois, vestindo a camiseta preferida, a mesma que usara quando foram ao haras conhecer Estrela. Colocou a cabeça para dentro do quarto e sorriu. Não precisava dizer que tinha dormido bem; o rosto denunciava. Desde a noite do poema na TV, algo nele repousara. As perguntas continuavam, mas tinham aprendido a se deitar.

— Hoje a fono pediu para a gente tentar o botão do “obrigado” — contou. — Ela falou que às vezes a gratidão resolve abrir caminhos que o medo fecha.

Marisa assentiu. Tinha aprendido, na marra, que a vida com Diego se fazia de pequenas portas. Quantas vezes, por falta de uma fresta, desistiram de passar? Quantas outras, por insistência, o fecho girou? Sombra, como sempre, parecia saber antes. Tocou a ponta da pata no pé da cadeira, dois toques compassados, a versão dele de “vamos”.

Na sala, o mundo da família se dividia em rituais: o quadro com as figuras (sol, casa, abraço), os botões com palavras gravadas, as fichas coloridas (“água”, “música”, “calma”, “ajuda”), o caderno grosso com capa azul onde Marisa anotava os milagres discretos do cotidiano. Havia, por fim, a plaquinha de metal na coleira de Sombra — “Anjo da Casa” —, que refletia o abajur como uma moeda de luz.

A terapeuta chegou na hora combinada, gentil como sempre, trazendo consigo uma pilha nova de cartões. Entre eles, um que Marisa nunca tinha visto: “coragem”. Simples, em letras grandes, cercado de amarelo.

— Vamos experimentar — sugeriu. — Nem sempre a gente nomeia o que sente, mas às vezes só de a palavra estar presente… algo nela aprende a morar.

Diego observou o cartão com uma atenção leve, como quem reconhece a forma de uma nuvem. Sombra, sentado ao lado, inclinou a cabeça. Os olhos do cão tinham um traço curioso: ficavam mais escuros quando Diego se concentrava, como se tentassem imitá-lo.

— A gente grava? — perguntou a fono, levantando o pequeno gravador conectado ao botão.

Marisa respirou, preparou a voz e disse: “coragem”. A palavra entrou no aparelho, saiu metalizada, ecoou na sala, se instalou sobre as coisas. Carlos se aproximou, posicionado atrás da cadeira; tinha mãos grandes para segurar o mundo sem quebrar.

O primeiro toque de Diego no botão foi tímido. A voz eletrônica repetiu “coragem”, e Sombra deu um microbalanço no rabo, quase imperceptível. No segundo toque, houve intenção. No terceiro, a palavra entrou no ar como se tivesse sido convocada de um tempo anterior à doença, anterior ao medo, anterior a tudo.

Foi então que aconteceu algo que ninguém combinou: Sombra se levantou e foi até a janela. Ficou parado, olhando para fora, atento ao vento que passava, as narinas tremendo. De repente, soltou um som antigo, de dentro do peito, longo e quase sem volume — um uivo que não chegou a ser uivo, como se o cão ajustasse a própria voz ao tamanho da casa para não assustar. Era um chamado baixo, ancestral, do tipo que acende passado em quem escuta. O silêncio, por um segundo, pareceu uivar junto.

Diego arregalou os olhos e, em resposta, pressionou o botão outra vez. “Coragem.” A palavra correu como faísca pela sala. A fono respirou fundo, Carlos encostou a testa na do menino, e Marisa soube, com a certeza das mães, que aquele som discreto de Sombra tinha liberado qualquer coisa que estava presa.

— Vocês… — começou a terapeuta, a voz embargada, — vocês acabaram de dar um nome para um uivo que não machuca. É isso que é viver aqui, não é? Transformar o que doía em ferramenta de amor.

Eles não responderam. Não eram necessários discursos perto de coisas essenciais.

Naquela tarde, a fono foi embora mais cedo, pedindo licença para chorar no carro, sem o peso de ser profissional diante de um milagre. Carlos fez café enquanto Marisa ficou com o caderno, copiando frases do dia com capricho de professora do primário. Escreveu: “Ele escolheu ‘coragem’ depois que Sombra chamou o vento.” E bordou um rabisco no canto — dois triângulos que se tocavam como duas orelhas.

Quando o sol desceu, a casa pegou o tom âmbar que deixa tudo mais íntimo. Era dia de visita da avó. Dona Lúcia chegou cheirando a talco e hortelã, a bolsa pesada de lembranças, os olhos cansados de saudade e fé. Desde o começo, ela provara do duelo entre esperança e cansaço. Concordou com médicos e discordou deles na mesma intensidade. Tinha aprendido a rezar com o corpo inteiro — um terço nas mãos e o neto diante dos olhos.

— Posso? — perguntou, apontando para a cadeira, pedindo licença para chegar.

Marisa sorriu, desviou o móvel para que a avó pudesse ficar frente a frente com o menino. Sombra, respeitoso, levantou e deitou ao lado da senhora, encostando-se à canela dela como se dissesse: “Eu cuido dele. Cuido da senhora também.”

— Hoje ele disse “coragem”, vó — comentou Carlos, sem se vangloriar. — Do jeito dele, disse.

Dona Lúcia passou a mão no rosto de Diego, antes mesmo de chorar; depois, sim, chorou. Quem ama e envelhece aprende a agradecer de um jeito diferente: pelo ontem que ficou e pelo hoje que ainda vem. Fez o sinal da cruz no ar, não como quem separa sagrado de profano, mas como quem costura as duas coisas num tecido só.

— Quando ele nasceu — contou, sem pedir licença para a memória —, eu ouvi um piado sofrido de passarinho preso na chuva. Hoje ouvi vento. É outra música.

Enquanto conversavam, um trovão distante desenhou uma linha no céu. As nuvens engordavam no horizonte, presas a uma promessa de chuva. Sombra olhou novamente para a janela. O pêlo do dorso eriçou em ondas pequenas, e as orelhas apontaram a direção por onde a frente fria chegaria. Diego o acompanhou com os olhos. O cão deu dois passos, encostou o corpo no pé da cadeira, e soltou aquele som baixo e comprido que já não era mais só dele — um chamado que parecia nascer também no menino. O silêncio, mais uma vez, respondeu.

— Uivar sem fazer barulho — disse Dona Lúcia, enxugando as lágrimas com a borda do lenço. — Quem mais nesse mundo saberia fazer isso?

A tempestade veio mansa, sem violência. O barulho da água sobre o telhado arrumou a ansiedade da casa inteira. Marisa puxou as cortinas até metade, para que a luz dos relâmpagos fosse só desenho, não susto. Carlos aumentou um ponto o volume da música — aquela trilha de instrumentos que tinha virado assinatura de dias bons.

Foi quando o telefone vibrou com uma mensagem curta: “Podemos recebê-los amanhã às 16h para a segunda sessão com a Estrela.” O coordenador do projeto finalizava com um recado que parecia confidência: “Ela ficou calma desde a última visita. Acho que sente saudade.”

— Vamos? — perguntou Carlos, quase menino.

— Vamos — respondeu Marisa, sem consultar o medo.

Na manhã seguinte, o céu amanheceu lavado, puro como respiração depois do choro. No caminho para o haras, a cidade parecia outra: menos pressa, mais espaço. Sombra viajava com o focinho próximo à fresta da janela, absorvendo o dia como quem estuda um mapa antes de guiar alguém. Diego, no banco adaptado, alternava o olhar entre a paisagem e o cão. De vez em quando, o menino emitia aquele som curto, quase vogal, e Sombra respondia com o resmungo doce que já era conversa.

No portão, Estrela os esperava de longe, guiada por uma moça de passo leve. Trazia um laço azul colado ao arreio, detalhe que Marisa interpretou como gentileza. A égua aproximou-se e fez o gesto do encontro: encostar o focinho na mão de Diego, delonga necessária para checar ritmos. Sombra encostou o dele um segundo depois, em uníssono cerimonioso. Três respirações se encontraram, e por um momento o mundo doeu menos.

Dessa vez, a equipe sugeriu uma novidade: caminhar até o campo mais aberto, onde o vento soprava sem medo. A sela adaptada foi posicionada, os instrutores se puseram de guarda, e o trajeto começou devagar, um passo e depois outro, o som da terra aceitando cascos. Sombra acompanhava pelo lado de fora, coordenado como um guarda-costas gentil.

— Se ele quiser, pode tentar reconhecer o “sim” e o “não” com o movimento da cabeça — explicou a terapeuta do projeto. — Às vezes, o balanço ajuda o corpo a encontrar caminhos mais livres para responder.

Diego fez o primeiro “sim” do dia sem ninguém pedir: inclinou a cabeça em aprovação, dois milímetros de vontade que valem um continente. Estrela manteve a cadência. O vento trouxe cheiro de capim, depois de água, depois de sol em pedra. Sombra levantou um pouco o queixo e emitiu o som grave e curto que havia aprendido em casa — não para assustar, mas para avisar: “Está tudo certo.”

Ao final do percurso, um menino do grupo seguinte observava à distância, colado na grade, a mãe atrás dele. Tinha os ombros duros e medo nos olhos. Sombra percebeu. Deitou a alguns passos, de lado, deixando a barriga meio exposta — posição rara, oferta de confiança. O garoto aproximou-se devagar, a mão hesitante. Quando tocou o pelo, Sombra manteve-se imóvel, presente o suficiente para que o menino não precisasse sustentar o próprio gesto sozinho. Marisa anotou a cena por dentro, onde as anotações não se perdem.

— É por isso que vocês vieram — sussurrou ela, sem necessidade de resposta. — Para lembrar outras casas de que o silêncio também acolhe.

De volta ao lar, o fim de tarde escolheu um dourado macio para se despedir. Carlos trouxe da garagem uma prancha de madeira que vinha lixando há semanas, a ideia antiga voltando limpa: transformar em mesa baixa, na altura exata para a cadeira de Diego. Com o cuidado de quem aprende o peso do mundo pela graduação dos dedos, ele posicionou o tampo no centro da sala e chamou:

— Vem ver, filho.

Diego olhou a novidade como se fosse um mar em miniatura: superfície lisa, espaço aberto, promessa. Sobre ela, Marisa espalhou cartas visuais, botões e um objeto novo — um tabuleiro simples com quatro círculos coloridos. Cada cor correspondia a um sentimento que eles tinham escolhido juntos: azul para “calma”, amarelo para “alegria”, verde para “coragem”, vermelho para “dor”.

— Hoje a gente só aponta com os olhos — explicou. — Se cansar, para. Se não quiser, para também.

Sombra sentou à esquerda do tabuleiro, a cabeça à altura dos círculos, atento como sempre. Marisa observou que, sempre que falavam de “coragem”, o cão ficava exatamente ali, guardando o verde. Diego percorreu as cores com o olhar. Parou no amarelo. Sombra abanou o rabo. Depois, voltou-se para o verde e mantinha por um segundo a mais. Marisa escreveu: “alegria + coragem”. Carlos respirou, e o ar pareceu novo.

Quando a noite caiu, a casa já tinha mais uma história para o caderno. Estavam todos cansados, mas era o cansaço bom — o que vem depois do uso legítimo do corpo. Antes de dormir, Marisa ainda arrumou a mesa, guardou as cartas, cobriu Diego com a manta azul, e acariciou o pescoço de Sombra.

Foi então que, do nada, sem qualquer razão aparente, o cão tornou à janela e repetiu o som de antes: um uivo tão baixo que quase não existia, tão longo que parecia atravessar paredes, tão doce que não assustava ninguém. Não era lamento. Era convocação. Chamava para perto aquilo que, durante anos, tinha morado longe.

Diego abriu os olhos, aquele clarão miúdo que só ele sabia dar quando entendia o essencial. Marisa congelou, com a mão suspensa no ar, testemunhando sem querer atrapalhar. Carlos, da porta, encostou o ombro no batente, sem fazer barulho.

No instante seguinte, algo se organizou no menino: o olhar alinhou, o queixo encontrou um ponto, os dedos fizeram microcontrações ritmadas. Não virou palavra. Não virou gesto amplo. Virou uma certeza que todos ouviram sem som: eu estou aqui. Sombra terminou o uivo-vagar e encostou o focinho no peito do amigo, afinando a respiração ao compasso do coração dele até que tudo ficasse igual.

— O silêncio dele… — murmurou Carlos, a voz ferida e feliz ao mesmo tempo. — O silêncio dele uiva. E o seu, Sombra, canta.

Marisa não respondeu. Andou até a mesa, abriu o caderno e escreveu com letra firme, para que o tempo não ousasse apagar: “Hoje entendemos que silêncio não é falta. É linguagem. Às vezes, ele precisa de um corpo emprestado para acontecer. Sombra empresta o dele. E quando empresta, o mundo entende.”

A madrugada seguiu sem sobressaltos. De hora em hora, a casa respirou inteira, como um organismo único. Perto do amanhecer, Marisa sonhou com o mar — não o mar que prometeram para um dia de vento forte, mas um mar mais íntimo, do tamanho da sala, batendo de leve na prancha recém-lixada. Numa beira, um menino de olhos vivos. Na outra, um cão de orelhas atentas. Entre os dois, nada. E, mesmo assim, tudo — uma ponte feita de presença.

Ao acordar, antes de o sol vencer a cortina, ela soube: o capítulo do dia já estava escrito. Não em páginas, mas em gente. Preparou o café, ajeitou o cabelo, entrou no quarto com o mesmo cuidado da véspera. Diego dormia sereno, Sombra deitado em guarda amorosa, as patas recolhidas como quem protege um segredo.

Ninguém falou. Ninguém precisava. Às vezes, a maior declaração de amor é não quebrar o encantamento daquilo que está inteiro.

E, naquele lar que aprendeu a chamar o vento pelo nome, uma verdade se assentou como poeira boa no rejunte do chão: o que não cabe na boca encontra a casa certa no corpo de quem ama. O que não nasce em frase nasce em gesto. O que não consegue atravessar a garganta atravessa o peito. E o que nenhum ouvido capta, o coração aprende a guardar.

Foi assim que eles entenderam, de uma vez por todas, a história que vinham vivendo desde o começo: Sombra não ensinou Diego a falar; ensinou o mundo a escutar. E toda vez que a casa parecia vazia de som, o silêncio — aquele velho conhecido — uivava baixinho por dentro, só o bastante para lembrar: eu também sou voz.


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