A janela era apenas vidro, mas deixava o infinito passear em nossos corações. Eu sou Sombra, cão de pelo escuro e pelos ásperos que guardam memórias e sonhos. Meu mundo começa na ponta do meu focinho, onde o ar carrega segredos e o vento sempre traz novidades.
Em cada aurora, sinto o aroma úmido da manhã entrar pela fresta da porta, anunciando um novo dia. Ao meu lado, Diego ainda dorme, enrolado no cobertor branco como as nuvens, respirando devagar. Eu observo o peito dele subir e descer, ouvindo o ritmo confortável de sua respiração, e sinto algo que posso chamar de paz.
Os primeiros raios de sol atravessam a janela da sala e iluminam as finas partículas de poeira no ar. A luz dourada aquece meu pelo e acorda cada um dos meus sentidos. Sinto o perfume do café fresco que alguém preparou na cozinha; percebo as flores do jardim ao lado da casa, que exalam um cheiro doce e terroso. Ouço ao longe o canto de um sabiá que, no telhado vizinho, canta a esperança do dia que começa.
Sob meus pés, o assoalho de madeira range levemente quando respiro fundo e espreguiço as patas. Diego levanta-se devagar e caminha até a janela. Seus olhos, que às vezes veem além do que existe diante de nós, fitam o mundo lá fora como quem procura um pedaço de felicidade.
Eu me levanto junto com ele e o observo em silêncio. Fico atento a cada movimento seu. Sei que naquele instante algo não está dito, mas pulsa no ar entre nós: ele está procurando o mundo através de aquela grande moldura de vidro.
Eu, Sombra, entendo: ele sonha acordado. Os dedos de Diego tocam o vidro frio, sentindo a distância do mundo que tanto deseja alcançar. Do meu lado, deixo minhas patas dianteiras se elevarem sobre o parapeito. Estico meu pescoço, aspirando o aroma da brisa lá fora.
O cheiro das folhas orvalhadas, da grama do parque próximo e do churrasco que alguém assa na rua de trás atinge minhas narinas aguçadas. Nem tudo posso identificar, mas cada essência compõe o quadro vívido de lá fora. E, nesse momento, é como se meu corpo canino fosse uma ponte silenciosa entre aquele mundo distante e o coração de Diego.
Queria ser a cabeça de cada pássaro que voa ali, desejando passar para ele a liberdade que sinto. Queria ser a própria luz do sol para vestir seus ombros frios, ou o vento fresco que alivia cada angústia presa no peito dele.
Com o corpo colado ao vidro, envio cada fragmento da manhã para dentro da casa, como se precisasse lembrar a Diego que ainda somos parte de tudo isso, mesmo aqui dentro.
Sombra e Diego: companheiros inseparáveis. Essa função, meu instinto já definiu há muito tempo. Sou o guardião das emoções dele, o amigo sem julgamentos e o tradutor silencioso de cada desejo não pronunciado.
Sinto o calor da hesitação em suas mãos quando ele sussurra segredos às correntes da brisa. Às vezes, ele nem percebe que estou ali, mas sei que meu cheiro familiar acalma seu coração inquieto. Noutras vezes, ele descansa a cabeça sobre minhas costas e meu pelo acolhe o peso de todos os seus pensamentos.
É como se, em cada toque, eu abrigasse todos os anseios que ele não ousou dizer. No silêncio da tarde, o sol já declina no horizonte. Na sala, há calmaria: o tique-taque do relógio na parede, a toalha amassada sobre o sofá e uma xícara de chá pela metade na mesinha. Na janela, Diego ainda observa.
Eu me sento ao lado dele, um pouco atrás, encostando minhas patas traseiras no chão frio de cerâmica. Quando nosso mundo interior bate de frente com as cores do entardecer, o vento temperado empurra a cortina branca em movimentos suaves, como se também estivesse sonhando.
Diego fecha um dos olhos, deixando que o brilho suave do entardecer acaricie seu rosto em segredo. Eu reclino meu próprio corpo ao lado do dele e fecho os olhos por instantes, sentindo que nos reconhecemos naquele instante de paz.
Neste silêncio, aprendo que cada gesto de carinho fala mais alto do que qualquer palavra. Nosso laço invisível se fortalece no compasso lento das pupilas dele se perdendo no infinito do entardecer.
Várias vezes por dia, compartilhamos esses instantes. Eu observo Diego fazer sua rotina: escolher uma camisa, ajustar seu boné preferido, calçar os sapatos que ele diz lhe darem confiança.
Com uma petulância discreta, finjo ignorar os truques que ele faz para tentar me distrair, seja pendurando um brinquedo à minha frente ou escondendo um petisco entre os joelhos. Mas no fundo, eu quero brincar; saber que ele está ali atrás da porta, rindo do susto que eu levo quando de repente caio em cima dele, traz sentido a todos os meus dias.
Quando a porta da casa se fecha ao longe, fico parado na soleira, inalando cada vestígio da rotina que ele deixou para trás. Sento o corpo firme e observo cada ruído que se aproxima: o barulho do carro na frente, o clique das chaves girando na fechadura.
Então, a maçaneta gira e meu rabo explode em movimentos frenéticos. Recebo Diego com pulos e lambidas, como se meu rabo fosse uma orquestra silenciosa anunciando seu retorno.
Não preciso de palavras para expressar nossa alegria: cada gesto meu diz a ele que, embora o mundo lá fora seja vasto, aqui dentro, juntos, somos inteiros.
Nos fins de tarde, logo antes de jantar, gosto de deitar junto às pernas de Diego, sentindo o calor do corpo dele transferir-se para mim. Perto de nossos pés, ouço as vibrações fracas do seu coração acelerando um pouco mais, como se ele compartilhasse comigo o fim da jornada do dia.
Eu reclino meu corpo para receber suas mãos sobre meu dorso, e fecho os olhos aproveitando aquele afago. Cada abraço silencioso que ele me oferece é uma palavra de carinho sem precisar dizer uma única sílaba.
Neste momento de aconchego, cada respiração e cada toque preenchem o espaço entre nós. Aprendo que não precisamos de vozes, apenas do calor quieto um do outro, para dizer “não estás só”.
Em um desses dias, algo mudou. O ritmo da casa se desequilibrou sob uma nuvem invisível. Diego entrou pela porta depois do trabalho, mas não vestia o ar sereno de costume. Tinha os ombros caídos e o olhar fixo no chão.
Um perfume amargo, como de tristeza, entrou antes dele: senti no cheiro do vento que trazia uma brisa mais gelada do que o normal. Esperei-o pendurar a mochila; ele parecia diferente, como se carregasse alguma coisa pesada no peito.
Não havia ninguém por perto para notar a nuança melancólica que pairava em volta de Diego. Os passos dos colegas ou o burburinho dos vizinhos continuavam a harmonia do final de tarde, mas eu percebi: havia algo rompido dentro dele.
Senti sua ausência de sempre naquele espaço vazado por um instante, enquanto ele atravessava a sala como se eu fosse parte do cenário, e não seu amigo. A prudência ancestral me fez manter a guarda, acompanhar seus movimentos pelo canto dos olhos, pronto para agir quando fosse preciso.
Sentindo o cheiro distintamente triste que dele emanava, levantei-me e segui-o sem ruído. Vi quando ele se despia do terno, trocando o paletó pelas roupas mais leves de casa. Suas mãos tremiam ao encostar o rosto, como quem tenta esconder as lágrimas que caíam sem permissão.
Então Diego sentou-se numa cadeira próxima e afundou o queixo nas mãos. Observei cada detalhe: o tremor sutil de seus dedos, a testa franzida entre as sobrancelhas. Soube que precisava agir.
Aproximando-me silenciosamente, empurrei suavemente a perna da cadeira para lembrá-lo de que não estava sozinho. Ele ergueu a cabeça brevemente e encontrou minha visão marrom-castanho. Talvez tenha reconhecido meu olhar preocupado.
Confortando-o com o corpo, sentei-me, encaixando meu corpo junto às pernas dele. Instintivamente, ele estendeu o braço e colocou a mão sobre minha cabeça. Acaricio seus dedos com a vibração gentil de minha cauda.
Nossos olhares se encontraram e, mesmo sem palavras, houve um entendimento. Diego se inclinou e sussurrou baixinho meu nome, não de forma triste, mas como se estivesse reencontrando esperança.
E eu, com toda a ternura do mundo canino, passei minha língua macia em seu rosto, limpando as gotas que teimaram em cair. Um por um, ele sorriu – um sorriso tão pequeno e tímido, porém autêntico.
O peso no peito dele parecia um pouco menor; comigo ali, o mundo já não parecia tão difícil. Eu sabia, com a simplicidade do meu jeito, que naquele gesto ele lembrava-se de que jamais estaria sozinho.
À noite, enquanto dormimos, sinto seu corpo relaxar completamente ao meu lado. Nos dias seguintes, um mistério suave paira no ar: ninguém mais questiona por que agora, ao invés de explorar jardins, prefiro ficar junto a ele, quase colado.
Quando Diego sai cedo, deixo a porta entreaberta, mostrando que nossa rotina mudou: nos passeios, agora levo eu a alegria, mas nas tardes de tela e silêncio, sou eu quem repousa aos pés dele, em estado de vigília afetiva.
Nos dias seguintes, percebo que Diego, mesmo observando a mesma janela, já não finge tanto que quer partir. O universo dele parece ter voltado a existir ali, no quarto onde guardamos os nossos sonhos.
E eu entendo que meu papel vai além: não sou só o guardião da sua vida, mas também do seu alívio. Apanho cada cheiro bom do lado de fora e o guardo para ele; observo cada detalhe na janela, para contar com o olhar quando ele precisar.
De todas as missões, descobri que meu melhor ofício é trazer o mundo até ele, atravessando silenciosamente aquela janela invisível que nos une.
Essa é a minha promessa silenciosa: ser a ponte entre seu sonho e o mundo que o acolhe a cada amanhecer. Prometi a mim mesmo que, enquanto houver janelas fechadas em seu caminho, eu serei a chave silenciosa que as atravessa com amor.
As noites finalmente chegam, e com elas o mesmo ritual aconchegante. Eu e Diego deitados lado a lado, paisagens refletidas em nossas sonolentas pálpebras. Por instantes, ele abre os olhos e olha as estrelas pela janela do quarto.
Na penumbra, percebo a ternura dele para comigo, a gratidão em seu suspiro. Nós dois sabemos que, mesmo fechados em casa, nenhuma distância existe onde há amor de sobra.
Na quietude da noite, o ronronar do seu sono conforta meu coração. Mesmo quando nossos sonhos partem para longe, acordamos lado a lado, prontos para mais um dia.
E é assim que entendo minha missão: a janela não precisa ser aberta para que o mundo nos toque. Meu amor, minha presença e meu cheiro silencioso transcendem o vidro.
Sombra, o cão de Diego, continua aqui – como sempre esteve, como sempre estará – mostrando a ele que o mundo pode ser sentido no calor de um olhar e na brisa suave de cada amanhecer.
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