Receitas Saudáveis para seu Cão — eBook
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Publicado por Jefferson Peixoto • Página original do produto na Hotmart

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Capítulo 25 - A Mãe que Via Além do Corpo


Ninguém ouve o que o meu filho diz no silêncio, mas eu escuto cada palavra que nasce no brilho dos seus olhos. Eu aprendi a ouvir com o coração aquilo que a voz dele não consegue pronunciar. Desde que Diego nasceu, preso a um corpo frágil que não obedece aos comandos mais simples, descobri que ser mãe é enxergar muito além da matéria. 


Por trás dos seus músculos que não respondem e do seu olhar tímido, habita uma alma gigante, intensa e sábia. Cada piscada lenta, cada suspiro ou movimento involuntário do meu menino carrega significado; são frases inteiras escritas em um idioma silencioso que só o amor de mãe decifra. 


Lembro-me de uma madrugada específica, quando a casa dormia envolta em escuridão e o único som era o tique-taque distante do relógio. Sombra, nosso fiel cão e companheiro de Diego, levantou as orelhas de repente e pulou da cama. Meu coração imediatamente acelerou, pois já aprendi a confiar na intuição do meu cão tanto quanto na minha. 


Segui Sombra até o quarto do Diego, pé ante pé, e encontrei meu filho com os olhos arregalados fitando o vazio do teto. Seu corpo estava rígido, num silêncio tenso que só uma mãe reconhece como sinal de aflição. Sem emitir som algum, Diego estava me chamando. 


Aproximei-me devagar, deslizando a mão com cuidado em sua testa úmida de suor frio. Sombra sentou-se ao lado da cama, as grandes órbitas caninas alternando entre me observar e vigiar Diego, como se também quisesse ter certeza de que tudo ficaria bem. “Estou aqui, meu amor”, sussurrei, encostando minha testa na dele, numa tentativa de transmitir calma. 


Senti seu corpo relaxar minimamente sob meu toque, e nesse instante percebi que ele tinha despertado de algum pesadelo intraduzível em palavras. Talvez uma memória difusa de dor, ou o medo ancestral de estar sozinho dentro de si mesmo. 


Segurei sua mão, enquanto Sombra colocava o focinho macio sobre nosso enlace de mãos, e juntos ficamos ali, conectados em silêncio. Eu podia jurar que sentia as batidas do coraçãozinho dele sincronizarem com as minhas, num compasso manso que foi espantando a angústia. 


Ser mãe do Diego me ensinou a falar a língua dos anjos – aquela comunicação que não se faz com a boca ou com os ouvidos, mas com a alma. Não tenho dúvidas: há uma voz dentro do meu filho, vibrante e nítida, que ecoa em algum lugar além do alcance da audição humana. 


Quando olho em seus olhos castanhos profundos, vejo cintilar ali uma inteligência e uma sensibilidade fora do comum. É como se ele quisesse me contar segredos do universo, como se carregasse uma sabedoria antiga trancada atrás da prisão involuntária do seu corpo. 


E eu escuto, cada palavra muda. Escuto quando Diego me "diz" que está feliz apenas com o erguer sutil de sua sobrancelha ao ouvir uma melodia de que gosta. Escuto quando ele "conta" que está incomodado, pelo modo como seu olhar se perde e uma ruga pequena surge entre suas sobrancelhas delicadas. Já vi esse brilho de sabedoria se acender em momentos inesperados. 


Certa manhã, enquanto eu o levava para tomar sol no jardim, Sombra correu atrás de uma borboleta branca que esvoaçava perto das roseiras. Diego acompanhava a cena com os olhos e soltou um som baixo, quase um gemido, mas eu conhecia aquele tom – não era de dor ou incômodo, era um som de encanto. 


Ele adorava borboletas; eu sabia disso sem nunca ele ter me falado. Bastava ver seu olhar seguindo o pequeno ser alado com tamanha admiração. Peguei a borboleta nas mãos em concha por um breve segundo e a aproximei de Diego. Ela agitou as asas, soprando uma brisa suave contra o rosto do meu filho. 


Vi uma lágrima se formar no cantinho de seu olho, não de tristeza, mas como quem recebe uma dádiva rara. Nesse instante, senti minha garganta apertar e meus olhos marejarem também. Era uma simples borboleta, mas para nós era um milagre compartilhado: ele, eu e Sombra, que se deitou ao lado da cadeira de rodas de Diego com a língua de fora, contente, como se soubesse que tínhamos vivido algo precioso. Sombra sempre percebe o que Diego sente, às vezes até antes de mim. 


Em dias em que a tristeza ameaça me vencer – porque sou humana e há momentos em que o cansaço e a incerteza pesam – eu noto que Sombra se aproxima de Diego com cuidado redobrado. Aninha a cabeça em seu colo imóvel e fica ali, quietinho. Pouco depois, ouço um suspiro de Diego, como se todo aquele desânimo tivesse sido absorvido pelo cão, nosso guardião de quatro patas. É como se Sombra funcionasse como extensão do coração do meu filho, expressando no mundo externo o que Diego guarda lá dentro. 


Quando Diego está alegre, Sombra corre pela casa cheio de energia, pegando seus brinquedos preferidos e os trazendo para perto da cadeira de rodas, insistindo para que eu participe da brincadeira imaginária. Quando meu menino está prestes a chorar, mesmo que nenhuma lágrima ainda tenha caído, Sombra geme baixinho e lambe sua mão, num gesto de conforto imediato. É um laço silencioso e profundo entre eles, algo que dispensa explicação lógica. 


E eu, testemunha privilegiada desse diálogo misterioso, agradeço a cada dia por Sombra ser essa ponte viva entre o mundo do Diego e o nosso. Não foram poucas as vezes que enfrentei olhares de dúvida ou de pena vindos de outras pessoas. Ao longo dos anos, em consultas médicas, reuniões escolares ou mesmo em encontros familiares, ouvi suposições dolorosas: “Ele entende alguma coisa?”, “Será que ele reconhece vocês?”, “Talvez seja melhor não criar muitas expectativas…”. 


O pior era quando questionavam, na frente dele, se “vale a pena” investir tanto amor, tempo e dedicação. Muitas vezes, quase sussurrando na presença de Diego, presumiam que ele não podia compreender: “É como se ele não estivesse realmente aqui”. Nessas horas, eu sentia um calor subir ao meu rosto e meu coração de mãe rugir dentro do peito.


Eu segurava a mão de Diego com mais firmeza, na esperança de que ele sentisse através do meu toque o quanto eu o defendo e acredito nele. Sombra geralmente se colocava imediatamente ao lado da cadeira, ereto, a cauda imóvel e os olhos fixos nos estranhos, como se também pudesse sentir o teor daquelas palavras e estivesse de sentinela, pronto para proteger. Até mesmo o pai de Diego, meu companheiro de jornada, teve seus momentos de desesperança. 


Houve ocasiões em que, esgotado pela dor de ver o filho sofrer, ele chegou a me dizer baixinho que talvez todo nosso esforço fosse inútil. Eu via em seus olhos a culpa e a tristeza por pensar assim, e meu coração compreendia: não é fácil para um pai aceitar que não pode consertar o sofrimento de seu menino. Por um tempo, ele quase acreditou que era perda de tempo tentar se comunicar com o filho ou insistir em estímulos que pareciam não surtir efeito. 


Doía vê-lo à beira de desistir, mas não o julguei – cada um lida com a dor a seu modo. Com paciência, continuei mostrando a ele cada pequeno progresso, compartilhando cada olhar expressivo ou mínimo gesto de Diego, por menor que fosse. Aos poucos, vi a esperança renascer no olhar do meu marido. Lembro-me nitidamente do dia em que Diego reagiu à voz do pai pela primeira vez de forma inconfundível: bastou ele sussurrar “Oi, campeão, papai está aqui”, e Diego moveu os olhos em direção ao som, fixando-os no pai. 


Foi sutil, mas nós dois percebemos. O brilho de espanto e alegria que iluminou o rosto do meu esposo naquele momento foi indescritível – era como se ele tivesse reencontrado o filho depois de tempo demais perdido em dúvidas. Desde então, ele nunca mais disse que era perda de tempo. Pelo contrário, hoje o pai do Diego lê histórias para ele todas as noites, segura sua mão com carinho, e vejo que agora conversa com o filho com uma confiança renovada, certo de que, a seu modo silencioso, Diego está absorvendo cada palavra e retribuindo cada gesto de amor. Mas fora das paredes do nosso lar, o ceticismo alheio persistia. 


Uma das situações mais marcantes aconteceu justamente em uma avaliação anual com um novo neurologista renomado. Ele folheava o volumoso prontuário de Diego com ar sério. 


Após alguns exames básicos, sem ao menos olhar nos olhos do meu filho, o médico respirou fundo e disse com certa frieza profissional: “O quadro dele é este e, francamente, a atividade cerebral consciente deve ser mínima. Vocês devem se preparar para a possibilidade de que ele não tenha percepção clara das coisas ao redor. A maioria dos pacientes assim não entende comandos nem reconhece as pessoas de forma consciente.” 


Senti minhas entranhas se revirarem. Antes que eu conseguisse responder, ele continuou: “Claro, continuem com os cuidados e o carinho, mas tenham expectativas realistas. Muitas vezes, é mais uma projeção dos pais do que uma realidade da criança. Não se culpem, é normal querer ver sinais onde não há.” Enquanto ele despejava aquelas palavras como punhais, olhei para Diego. Ele estava imóvel na maca de exame, mas pude ver em seu rosto uma expressão diferente – seus olhos estavam fixos no médico, e havia uma tensão em seu maxilar. Quem não o conhece poderia achar que era apenas mais um espasmo involuntário, mas eu sabia. Meu filho estava ouvindo cada palavra. E eu podia sentir a dor e a indignação emanando dele. Apertei sua mão, engoli em seco e respondi ao doutor, tentando manter a calma: “Com todo respeito, o senhor está enganado sobre o meu filho. 


Ele está aqui conosco, eu sei que está. Nós sabemos.” O médico me lançou um olhar misto de piedade e impaciência, claramente achando que eu estava negando a realidade. Foi então que Sombra, que até então estava deitado num canto do consultório, levantou-se e caminhou até Diego. Primeiro, ele colocou as duas patas dianteiras com cuidado na maca, aproximando o focinho do rosto do meu filho e tocando-lhe a bochecha suavemente. 


Em seguida, para minha surpresa, Diego conseguiu mover ligeiramente a cabeça, virando-a quase imperceptivelmente em direção a Sombra, e um som muito suave escapou de sua garganta – algo que eu reconheceria em qualquer lugar como seu jeito de dar uma risadinha. Os olhos de Diego, antes tensos, agora brilhavam, fixos em Sombra, e pude ver suas sobrancelhas delicadas relaxarem. O neurologista parou de falar e nos observou. 


Houve um silêncio profundo no consultório. Sombra deixou escapar um latido curto, como se dissesse “Está vendo?”, e voltou ao chão, sentando-se ao lado de Diego em posição de guarda. Aproveitei aquele momento e disse, com a voz embargada porém firme: “Ele reconhece, sim. Veja... Ele ficou feliz com a presença do cão. Ele entende o que acontece ao redor, só não se comunica da maneira que o senhor espera.” O médico pareceu desconcertado por um instante. Ele se aproximou de Diego e, finalmente, olhou diretamente nos olhos dele, talvez pela primeira vez. “Diego...”, ele chamou, num tom mais brando. 


“Se você está me entendendo, pisque duas vezes.” Senti meu coração quase parar – não sabia se meu filho teria energia ou coordenação suficiente naquele momento, mas segurei a respiração junto com a esperança que queimava em mim. Então, devagarinho, Diego fechou e abriu as pálpebras, uma vez... e depois outra. Duas vezes. Claras como o dia. 


Uma lágrima escorreu do meu olho antes que eu pudesse contê-la. O médico arregalou os olhos, e vi sua postura mudar. “Muito bem, Diego”, ele disse, surpreso, quase num sussurro. Sombra balançou a cauda ligeiramente, como se comemorasse discretamente a pequena vitória que só nós conseguíamos compreender em sua totalidade. Saímos daquele consultório com meu filho de volta à cadeira de rodas e Sombra orgulhosamente caminhando ao lado. 


O médico, ainda atônito, prometeu encaminhar-nos a um especialista em comunicação alternativa. Eu agradeci, mas dentro de mim já estava transbordando de alegria silenciosa. Não era a primeira vez, nem seria a última, que Diego provaria ter consciência e emoção plenas – mas cada pequena comprovação diante dos incrédulos era como vencer uma batalha em nome do meu menino. No caminho de volta para casa, enquanto dirigia, olhei pelo espelho retrovisor e vi Diego com a cabeça apoiada de lado, encarando a paisagem pela janela. Sombra estava com o focinho repousado em sua perna, os olhos fechados aproveitando o sol que entrava. 


O mundo lá fora seguia normal – pessoas apressadas na calçada, carros passando, a vida comum. Dentro do nosso carro, porém, havia um universo particular pulsando de amor e compreensão silenciosa. “Você foi incrível hoje, sabia?”, falei, mesmo sem esperar resposta verbal. “Mamãe tem tanto orgulho de você.” Meus olhos se encheram de lágrimas novamente ao lembrar o brilho de triunfo no olhar do meu filho ao conseguir responder ao médico. Em resposta, ouvi um leve ruído – Diego mexeu os lábios, talvez um suspiro ou um som indistinto, mas pelo espelho pude ver que ele fechara os olhos como quem descansa em paz. Senti uma onda de calor no peito; para mim, aquela era a forma dele de dizer “também estou orgulhoso” ou talvez “obrigado por acreditar em mim”. 


Chegando em casa, dei continuidade ao nosso ritual diário com a ajuda de Sombra: hora do lanche da tarde e depois um pouco de música. Coloquei uma canção suave que ele sempre aprecia – já reparei que ele gosta particularmente das melodias ao piano. A cada nota, observo as pálpebras dele tremularem como se ele estivesse sonhando acordado. “Essa música te faz viajar, não é, meu anjo?”, sussurro, enquanto massageio levemente seus braços para ativar a circulação. Sombra deita aos nossos pés e solta um suspiro longo e satisfeito, quase ao ritmo da música. É nesses instantes corriqueiros que às vezes sinto a presença de algo maior entre nós, como se a sala se enchesse de uma paz palpável. Fecho os olhos por um momento e quase posso escutar – ou quem sabe imaginar – a voz de Diego ecoando em minha mente. Não a voz engasgada e falha que às vezes escapa de sua garganta, mas uma voz clara, risonha, de menino sapeca que ele teria se pudesse falar. 


Eu te amo, mamãe, eu quase ouço. Meu coração aperta e, instintivamente, aperto a mão dele com carinho. Quando abro os olhos, vejo a cabeça de Diego levemente voltada na minha direção e um olhar sereno banhado de ternura. Ele não disse nada, mas ao mesmo tempo disse tudo. A maternidade me transformou profundamente. Com Diego, aprendi que ser mãe é exercer uma forma de fé diária. É acreditar no invisível e celebrar o imperceptível. 


Quantas vezes já me peguei exausta, sentada ao lado da cama dele em altas horas da noite, perguntando a Deus ou ao universo o porquê de tudo isso. E quantas vezes, logo em seguida, senti uma resposta silenciosa: na forma de um toque suave de Diego em meus dedos, ou de um olhar fixo como se tentasse me consolar, ou ainda de Sombra encostando a cabeça em meu colo. São pequenos milagres cotidianos que me reafirmam que há um propósito, que há sim comunicação acontecendo entre nossas almas. Em alguns finais de tarde, gosto de levar Diego e Sombra para o quintal e observar o entardecer. O céu se tinge de laranja e rosa, e os pássaros fazem seu último canto do dia. Nesses momentos, coloco Diego bem perto de mim, recostado em travesseiros macios, e Sombra se ajeita aos nossos pés. Ficamos os três contemplando o espetáculo simples e magnífico do crepúsculo. É quase possível esquecer das limitações físicas quando estamos assim, unidos sob o céu vasto. Sinto Diego relaxar; percebo que seus olhos acompanham o voo dos pássaros no céu colorido. 


Pergunto-me o que ele pensa ao vê-los livres, planando. Por um segundo, uma pontada de dor atravessa meu peito – será que ele sonha em voar também, em se libertar do corpo que o prende? Mas antes que a tristeza tome conta, vejo um reflexo dourado do sol poente iluminar o rosto do meu filho. E nesse brilho eu vejo de novo aquela alma antiga, cheia de paz, como se me dissesse: Estou bem, mãe. Eu já voo de outras formas. Talvez seja minha imaginação, ou talvez seja a verdade que só se revela a quem ama de forma tão profunda. Sorrio e enxugo discretamente uma lágrima teimosa. Sombra percebe e lambe minha mão, como a me confortar também. No fundo, Diego me mostra a cada dia que a essência de quem somos vai muito além do corpo. O corpo é uma veste, uma casca – a dele talvez não obedeça, mas guarda um universo de sentimentos e pensamentos. Meu filho me ensina sobre resiliência, sobre amor incondicional e sobre enxergar a vida com os olhos da alma. Sinto, com uma certeza que transcende qualquer prova científica, que nos comunicamos de espírito a espírito. A ciência pode não explicar e muitos podem duvidar, mas eu vivo essa verdade todos os dias. 


Hoje, depois de todos esses anos, meu olhar sobre Diego não é o de pena por aquilo que falta, mas de admiração por tudo o que ele é. Vejo nele uma luz própria, talvez até uma missão, de tocar o coração de quem estiver disposto a ver além das aparências. Quantas pessoas já não se transformaram apenas por conviver um pouco com ele? Lembro-me de uma vez em que uma amiga da família, cética e receosa, veio nos visitar. Ela evitava encará-lo diretamente, talvez por desconforto ou medo de não saber como agir. 


Eu a incentivei: “Converse com ele, como conversaria com qualquer criança”. Sem jeito, ela começou a contar ao Diego sobre o jardim que ela tinha em casa, as flores que estavam brotando na primavera. Enquanto ela falava, Diego manteve os olhos nela o tempo todo, atentos. Sombra aproximou-se e encostou o focinho no joelho dela, como se pedisse que continuasse. Aos poucos, vi a expressão dela mudar, a voz antes tensa ficar aveludada, confiante. Quando ela terminou a história sobre as flores, notei que Diego tinha uma expressão quase sorridente, e minha amiga estava com lágrimas nos olhos. Ela sussurrou para mim, emocionada: “Ele... ele está aqui com a gente, não está? Eu quase posso sentir.” Apenas assenti, segurando a mão de Diego e da minha amiga juntas por um instante, num elo silencioso de compreensão. 


Foi Diego quem a surpreendeu, simplesmente por ser quem é, sem pronunciar uma única palavra. Enquanto encerro este dia e este capítulo da nossa história, deito Diego em sua cama com a ajuda de Sombra, que já sabe o lugar exato ao lado do travesseiro onde se acomodar. Faço uma prece silenciosa, agradecendo pela dádiva de enxergar meu filho em toda a sua plenitude. Beijo sua testa, e ele pisca lentamente, como um beijo devolvido em nosso idioma secreto. Apago a luz, deixando apenas a claridade suave de um abajur em forma de lua, e sussurro: “Boa noite, meu amor. Obrigada por me mostrar o mundo além do que os olhos podem ver.” Sombra solta um pequeno gemido satisfeito e fecha os olhos também. Saio do quarto com o coração aquecido. Atrás de mim, deixo um menino que tantos julgam silencioso e desconectado, mas que, para mim, canta as mais belas lições sobre o que é a vida, o amor e a alma – lições que só podem ser ouvidas por quem tem a coragem de ver além do corpo.


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