"Existem dias em que o céu se abaixa para tocar a terra, e nós, se estivermos atentos, percebemos que isso é o amor pedindo passagem."
Capítulo 7 – O Dia em que o Céu se Abaixou
Quando a vida resolveu provar que o impossível também tem cheiro, cor e som
O amanhecer trouxe um silêncio diferente. Não o silêncio denso das preocupações, mas aquele que antecede acontecimentos que mudam a rota. Era como se a casa inteira tivesse prendido a respiração, esperando algo que ninguém sabia nomear. A luz entrou pelo vidro da janela mais macia, espalhando um tom dourado que parecia ter saído de dentro de uma vela. Marisa acordou antes do despertador, de novo — não por insônia, mas por uma intuição que soprava no ouvido: “Hoje vai ser importante.”
Na cozinha, enquanto o café subia na chaleira, ela abriu o caderno “Coisas que o Diego diz sem falar” e ficou passando as páginas devagar, como quem acaricia a pele de uma história viva. Cada anotação era uma ponte, cada data um marco. Parou na última entrada: “Te amo. Olhos. Toque. Silêncio.” Sorriu e fechou o caderno, encostando a mão sobre a capa como se assim pudesse proteger o conteúdo de qualquer esquecimento.
Quando voltou para o quarto, encontrou Sombra já desperto, deitado ao lado da cama de Diego, observando-o como se o guardasse de um sonho perigoso. Os olhos do cão estavam atentos, mas havia algo mais: uma tranquilidade profunda, o tipo de paz que só vem quando se sabe exatamente onde precisa estar. Ao ver a mãe, Sombra abanou o rabo de leve, sem se mover. Era como se dissesse: “Não o acorde ainda. Ele está sonhando bonito.”
Diego, com os cabelos levemente bagunçados, tinha um sorriso minúsculo nos lábios. Não era raro, mas também não era comum. Marisa sentiu o coração acelerar. Ajoelhou-se ao lado da cama e colocou a mão sobre o peito do filho. A respiração estava ritmada, o calor constante. Ela sabia que aquele era um daqueles momentos que não se planeja: apenas se vive. Ficou ali, respirando junto, até que os olhos dele se abriram lentamente.
— Bom dia, meu amor — sussurrou, tocando de leve a ponta do nariz dele.
Diego piscou duas vezes. “Estou bem.” Sombra levantou, aproximou o focinho e encostou na mão do menino. O toque foi diferente. Mais longo. Mais consciente.
Marisa percebeu que havia algo no ar — e não se enganava.
Na hora do almoço, enquanto Diego participava da atividade com a terapeuta ocupacional, o celular de Marisa tocou. Era um número que ela não reconhecia. Atendeu com cautela. Do outro lado, uma voz masculina, serena, apresentou-se: era o coordenador de um projeto de equoterapia da cidade.
— Recebemos seu contato através da fisioterapeuta do Diego. Ela falou muito sobre ele e sobre… — houve uma breve pausa, como se o homem sorrisse — sobre o Sombra. Gostaríamos de convidá-los para uma sessão experimental.
Marisa ficou em silêncio por alguns segundos. Equoterapia. Cavalos. Movimento. Tudo que, para muitos, seria impossível para Diego. O coração dela se dividiu entre a vontade e o medo.
— É seguro? — perguntou, mais para acalmar a si mesma do que para obter uma resposta técnica.
— Extremamente. Temos adaptações para diferentes necessidades. E… — a voz suavizou ainda mais — às vezes, o simples contato com o animal já é terapêutico.
Marisa olhou para o filho, que agora tentava alcançar um cubo colorido com esforço concentrado. Pensou em como o menino havia superado barreiras que pareciam muralhas. Pensou em como Sombra, vindo da rua, havia aprendido a decifrar almas. Respirou fundo e respondeu:
— Vamos.
O dia estava claro, mas não escaldante. O vento trazia cheiro de mato e terra molhada. Ao entrarem no haras, Diego arregalou os olhos como se tivesse visto um pedaço novo do mundo. Sombra, por sua vez, levantou o focinho para o ar, aspirando cada partícula como quem lê uma carta aberta.
O coordenador os recebeu com um sorriso que não forçava intimidade. Apresentou-os a Estrela, uma égua de pelagem marfim e olhos que lembravam o mel do outono. Diego manteve o olhar fixo nela por longos segundos. Estrela, curiosa, aproximou-se devagar, encostando o focinho na mão do menino.
O que aconteceu a seguir foi como um fio invisível se estendendo: Diego piscou duas vezes. Sombra, sentado ao lado, não fez movimento brusco, mas inclinou levemente a cabeça para observar melhor. Estrela permaneceu ali, respirando devagar, como se sincronizasse o fôlego ao do menino.
Marisa segurou o celular, mas não filmou. Sabia que certos milagres se guardam na pele, não na memória digital.
Com todo o cuidado, a equipe colocou Diego numa sela adaptada, sustentada por dois instrutores laterais e um atrás. Sombra, que havia sido instruído a esperar, permaneceu atento, mas sem sinais de ansiedade.
A égua começou a andar devagar, o som ritmado das patas no chão formando um compasso que parecia acalmar até o vento. Diego, acostumado à imobilidade, experimentava algo novo: o balanço. Seus olhos se encheram de uma mistura de surpresa e prazer.
— Está tudo bem, meu amor? — perguntou Marisa, andando ao lado.
Ele piscou duas vezes. E mais: tentou levantar o queixo para ver melhor o horizonte.
Sombra, acompanhando o percurso do lado de fora, movia-se como se fosse parte da equipe, ajustando o passo ao da égua, olhando ora para Diego, ora para os instrutores. Era como se dissesse: “Estou cuidando. Podem confiar.”
O percurso durou poucos minutos, mas foi suficiente para algo profundo acontecer. Ao descer, Diego não parava de olhar para Estrela. Esticou a mão e, com esforço, tocou novamente o focinho dela. Foi nesse instante que Sombra se aproximou e encostou o focinho no mesmo ponto, unindo o toque dos três.
Marisa mordeu os lábios para segurar o choro. Não deu certo.
No caminho de volta, o silêncio era de digestão emocional. Carlos, que havia ido dirigindo, olhava pelo retrovisor para capturar cada detalhe: o leve sorriso de Diego, o olhar de Sombra, a expressão serena de Marisa.
Quando chegaram, Diego parecia exausto, mas não daquele cansaço que derruba; era um cansaço de corpo usado, de vida experimentada. Sombra não saiu do lado dele nem por um segundo.
À noite, enquanto Marisa escrevia no caderno, percebeu que estava tremendo levemente. Não de medo, mas da consciência de que havia presenciado algo que mudaria a forma como via o futuro do filho.
“Hoje, Diego tocou dois mundos ao mesmo tempo: o da égua Estrela e o do Sombra. E eu vi, com meus próprios olhos, que o amor pode caber em qualquer corpo, em qualquer forma, em qualquer encontro.”
Dois dias depois, o coordenador do projeto enviou uma mensagem: Estrela “pedia” por Diego. Não de forma literal, mas havia reagido de modo incomum desde o encontro. Marisa interpretou como um chamado. Voltaram ao haras.
Dessa vez, algo novo aconteceu. Diego, ao ver a égua, emitiu um som que não era palavra, mas também não era aleatório. Sombra, percebendo, latiu uma única vez e depois silenciou, como se desse espaço para o amigo.
O coordenador, emocionado, disse:
— Ele está tentando responder à Estrela.
Marisa quase caiu em lágrimas novamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário