Às vezes, a espera transforma-se na prova mais forte do amor.
Capítulo 39 - Eu Contra a Porta da Escolinha
O sol suave da manhã invadiu o quintal onde eu estava deitado, esparramado como um feixe de luz quente. Hoje, parecia diferente. Eu sentia no ar um aroma inédito – de papel novo e de uniformes limpos, como se a casa inteira tivesse acordado perfumada de novidades. Diego se movia rápido pela casa, todo alegre, sem prestar atenção em mim. Ele pulava de empolgação, ajustando a mochila, e eu pensei: talvez hoje seja só mais um dia incrível juntos. Mas havia algo diferente em seus olhos, algo que me deixou inquieto logo de cara.
No caminho até a van escolar, eu, Sombra, farejava cada centímetro do chão: o perfume da grama molhada, o cheiro de café da manhã que escapava pela janela da cozinha, até o perfume suave de mamãe flutuando pelo ar. Mamãe e papai conversavam baixo, trocando olhares curiosos e sorrisos nervosos. Diego estava radiante, mal podia esperar para conhecer todos os amigos novos da escola, e eu percebi que aquilo o deixava eufórico. Abanava o rabo todo, ansioso, esperando pular para fora do carro a qualquer momento. Porém, ainda em casa, papai me apanhou pela coleira e disse sorrindo: “Vai lá, campeão, o seu dia de aventuras começa agora – Sombra espera aqui fora, ok? A gente se vê depois do recreio.” Fiquei confuso, mas carimbei na memória aquelas palavras.
Quando chegamos à escolinha, senti o cheiro de livros novos, de cadernos e crianças pequenas no ar. Mamãe abriu a porta do carro para Diego, e eu, pulando entusiasmado, tentei sair junto. Mas papai agarrou minha coleira com cuidado e me segurou. Ele sorriu e falou baixinho: “Fica aqui, Sombra. Diego vai com a gente conhecer a escola, mas já já voltamos, tá bem?” Eu não queria ficar para trás; meu corpo todo implorava para atravessar a porta comigo. Mesmo assim, obedeci e dei algumas voltas no pátio, sentindo o peso daquela distância recém-inaugurada.
Atrás da porta de vidro da escolinha, as vozes felizes das outras crianças só aumentavam o vazio no meu peito. Eu me sentia tão pequeno e confuso, tentando decifrar aquele silêncio que nos separava. A coleira apertava meu pescoço, como se quisesse me dizer que eu realmente tinha que ficar ali. Eu teria feito de tudo para pular aquele portão e ficar ao lado dele, oferecendo minha língua quentinha para afagar seu rosto como eu sempre faço. Lá dentro, eles riam, brincavam e faziam amigos; eu só ficava ali, parado, sentindo cada segundo de saudade descer fundo em mim.
A solidão bateu forte nas minhas costelas quando a porta se fechou de vez. Por um instante, achei que fosse um pesadelo e tentei correr para pegá-lo, roendo o batente com os dentes. Mamãe segurou minha coleira com firmeza, me chamando de volta, mas eu implorei com todo o meu olhar canino para deixá-lo entrar. Senti uma pontada de ciúme inexplicável ao ver um garotinho abraçando seu ursinho de pelúcia bem apertado, como se aquele ursinho fosse meu substituto ali. Queria rosnar para mostrar que o Diego era meu amigo, e que ninguém podia tomar o meu lugar no mundo dele, mas um nó na garganta trancou meu latido. Não entendia como a felicidade dele podia criar um abismo entre nós.
Lá dentro, embora eu não pudesse vê-lo, sabia que Diego também sentia algo estranho. Ele sempre foi um menino cheio de coragem, mas naquele momento tinha de buscar forças ainda maiores. Se ele chorasse por estar longe de casa, eu choraria por ele ali fora, preso entre o portão fechado e meu instinto protetor. A cada risada que escapava do salão, o meu corpo inteiro vibrava de fome por ele. Meus olhos caninos marejavam sempre que uma professora chamava seu nome e ele obedecia com um leve sorriso. Eu deveria estar do lado dele, pedindo para lamber sua mão e enchendo seu coração de segurança, mas só restava a promessa amarga de que, em breve, aquela manhã terminaria e o traria de volta para mim.
Do lado de fora, mamãe me acariciava com a ternura de sempre. “Seja bom, Sombra”, dizia ela com voz suave, tentando esconder o aperto no coração. Papai acariciava meu topete e murmurava em meu ouvido: “Depois do recreio a gente te pega, meu campeão.” Eles tentavam sorrir, mas naquele momento eu os via tristes também. Às vezes, eu lambia suas mãos só para sentir que o amor deles ainda me alcançava. Queria me atirar no abraço do Diego, querendo unir todo mundo ali num círculo apertado, mas a coleira gentil me puxava de volta. No fim, ficou claro: aquele dia que deixava o Diego crescer deixava também um pedaço de mim órfão de sua presença.
Mesmo de longe, jurei que continuaria sendo seu escudo. Quando ouvi um barulho alto de carro freando perto da entrada, levantei-me num salto e encarei a movimentação. Tentei soltar um rosnado discreto para qualquer sombra suspeita que se aproximasse, mesmo que fosse apenas o vento balançando o mato. Queria que ele soubesse que, enquanto estivesse atento lá dentro, eu estaria vigiando ali fora. Quando uma garotinha caiu de joelhos e começou a chorar alto no recreio, eu quis pular naquele choro como se fosse a própria dor de Diego caindo no meu colo. Em vez disso, encolhi meu corpo no canto, sentindo de perto a saudade daquela presença que estava do outro lado do muro.
Com o passar do tempo, minha raiva começou a ceder lugar a um sentimento confuso e esperançoso. Deitado no canto da calçada, fechei os olhos por um instante e imaginei Diego sorrindo lá dentro, descobrindo segredos do mundo sem mim por perto. Pensei: talvez não seja justo, mas às vezes certas coisas acontecem para a gente crescer. Lembrei das palavras do papai: “O mundo é grande, garoto, vá se aventurar.” Talvez aquele fosse o momento de aventura que ele precisava enfrentar sozinho. Abri os olhos e senti uma leve brisa me acariciar o pelo, como se o próprio céu quisesse me consolar.
Fiquei ali, imóvel sob o sol que subia cada vez mais, mas meu coração já não doía tão forte. O vento jogava meus pelos de um lado para o outro, quente e aconchegante, como se fosse a mão protetora de alguém me confortando. Observava as expressões dos adultos conversando — cada um perdido em seu mundo — e comecei a sentir que eu também habitava o meu, enquanto Diego estava no dele. O tempo passou voando. Quinze, vinte minutos... ou seriam só dois minutos de tédio para um cão? Não sabia dizer, mas deixei de contar e fui brincar com um graveto que rolava no chão. De repente, senti um passo de maturidade pousar em mim: a compreensão silenciosa de que, de alguma forma, aquele dia era importante para nós dois.
Então, um cheiro gostoso de pão quentinho flutuou pelo ar do lado de fora. Meu estômago ronronou, lembrando-me das horas em que Diego me dava petiscos depois do lanche, antes de voltar para brincar. Mas naquele instante, antes de pensar em comida, pensei em Diego: será que ele estava com fome também lá dentro? Será que sentia um pouquinho de frio sem minha companhia? Meu rabo continuava batendo no chão feito leque de ansiedade, enquanto eu olhava para a porta que se abria de vez em quando. Imaginei pedir ao vento que levasse um latido meu até ele, um lembrete dizendo “Estou aqui, amigo, e estou com você de coração”. Ensaiava um rosnar baixo, mas não por raiva; era um aviso suave só para ele entender, um lembrete silencioso de que meu instinto protetor não descansava.
Foi quando ouvi gritos alegres e pés apressados se aproximando. A porta se escancarou e um clarão de risadas escapou de dentro. Eu nem precisei olhar para saber que era Diego vindo em minha direção. Meu corpo todo sentiu seu cheiro antes mesmo de eu ver seu rosto: aquele aroma de bolo fresco, de parque e aventura era inconfundivelmente o do meu menino de olhos brilhantes. Soltei um latido agudo de felicidade e despenquei em sua direção, ignorando qualquer ordem para ficar parado. Ele veio correndo, sorrindo, e nos abraçamos no ar – eu pulando e ele me envolvendo em seus braços apertados. A nossa separação de poucos minutos havia terminado, e tudo que importava era que estávamos juntos de novo.
Meu menino ria fingindo bronca enquanto eu o lambia inteiro de alegria, mas seu olhar brilhava com tanta felicidade que enchia meu coração de orgulho. Papai e mamãe chegaram logo depois, contaram como eu tinha me comportado bem e recolheram minhas coisas. Todos sorriam emocionados, com os olhos umedecidos, ao nos verem reunidos assim. A saudade que ficou para trás transformou-se em pura euforia, como se cada lambida minha espalhasse fogos de artifício de felicidade. Por um instante, o portão da escolinha existiu apenas nos estilhaços de vidro sob nossos pés; no ar, pairava apenas o calor do nosso abraço e a certeza de que o amor pode atravessar qualquer distância.
No caminho de volta para casa, aninhei meu corpo no banco do carro, sentindo o cheiro de bolacha de leite que ainda tinha no ar – Diego tinha tomado um lanchinho gostoso. Eu estava exausto de tantas emoções, mas feliz demais para dormir. Diego acariciava minha cabeça e sussurrava: “Obrigado, Sombra, por esperar tanto por mim.” Naquele momento, eu entendi: cada latido, cada pulinho, cada segundo separado tinha sido só uma prova de que estávamos prontos para novas aventuras – juntos. A escola não diminuiu nosso laço, mas o esticou para provar o quanto ele era forte. E eu, mais certo do que nunca, sabia que o amor não se mede em tempo nem em metros, mas em cada batida do coração que atravessa qualquer porta.
Em casa, deitamos juntos sobre o tapete da sala. Ele deitou a cabeça em meu pescoço e eu senti seu coração acelerar ao voltar ao ritmo sereno de sempre. As horas difíceis tinham ficado para trás junto com a porta que se fechou — uma porta para o mundo que, naquele momento, se abriu para o nosso abraço. Hoje aprendi que crescer não é ir embora, mas aprender a voltar. E, segurando firme aquela carícia da mão dele, ouvi em silêncio: mesmo quando o mundo fecha uma porta, o amor escancara janelas infinitas em nosso coração.
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