Receitas Saudáveis para seu Cão — eBook
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Publicado por Jefferson Peixoto • Página original do produto na Hotmart

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Capítulo 21- Brigas de Dentro do Olhar

“As maiores batalhas nem sempre deixam cicatrizes na pele; muitas se travam em silêncio, por trás de um olhar.”

Capítulo 21- Brigas de Dentro do Olhar

Eu quase consigo ouvir o barulho de uma batalha acontecendo no silêncio do quarto. Está tudo escuro agora, exceto pelo feixe tímido de luz do corredor que desenha a silhueta de Sombra ao lado da cama. O velho pastor alemão mantém a cabeça erguida, as orelhas alertas – ele sente o que eu sinto, e sei que em seu peito também há uma guerra invisível. Meus olhos ardem e estão marejados, fixos no rosto sereno de meu filho. Diego dorme profundamente, mas seu semblante transmite uma espécie de esforço silencioso. As pálpebras dele tremulam de leve, e eu me pergunto que brigas internas se passam por trás daquele olhar fechado. São brigas de dentro do olhar – lutas que ele nunca pôde gritar ao mundo, mas que travou todos os dias com uma coragem silenciosa.

Aproximo-me com cuidado da cama, sentando na poltrona que já moldou o meu cansaço ao longo dos anos. A madeira antiga estala sob meu peso e Sombra se move apenas o suficiente para encostar o focinho na mão de Diego, como faz todas as noites. Respiro fundo, tentando acalmar o coração aflito. É madrugada e o relógio na parede parece indeciso entre marcar o tempo ou suspender as horas. Quantas vezes vivi cenas parecidas com esta? Incontáveis noites de vigília, esperando crises passarem, esperando a manhã trazer alívio… e sempre com Sombra ao meu lado, sentinela fiel das horas mais sombrias. Mas esta noite é diferente. Há um silêncio pesado no ar, um pressentimento que aperta meu peito.

Diego esteve doente nas últimas semanas. Uma infecção respiratória, comum em pacientes acamados, disseram os médicos. Comum. Sorrio sem humor ao lembrar da palavra – nada nunca foi comum na vida do meu filho. Cada tosse, cada febre é um campo minado de possíveis desdobramentos sérios. Ele lutou tanto para estar aqui, cada dia conosco, que sinto meu coração se despedaçar só de pensar em perdê-lo. E agora essa febre teimosa vai e volta, minando as poucas forças que ele tem. Os médicos estão preocupados. Nós também. Sombra não sai de perto dele um segundo sequer – mal come, mal dorme, vigia Diego como se soubesse que algo precioso demais está em jogo.

Eu estendo a mão e acaricio a cabeça de Sombra. Sinto os pelos grossos e já meio grisalhos entre meus dedos trêmulos. Ele me olha por um instante e vejo meus próprios medos refletidos naqueles olhos castanho-escuros. “Cuida dele pra mim…”, sussurro, com a voz falhando, e Sombra lambe minha mão, devolvendo uma espécie de promessa silenciosa: “Sempre.” Não sei dizer quantas vezes esse cão salvou a vida do meu filho – perdemos a conta. Mas nesta noite, a luta é silenciosa e não há muito que possamos fazer além de esperar. Esperar e ter fé.

Me inclino sobre Diego, ajustando suavemente a coberta ao redor de seus ombros frágeis. Sua respiração está leve, porém irregular. Coloco a palma de minha mão em sua testa; parece menos quente que há algumas horas, graças aos remédios. Ainda assim, há uma palidez no rosto dele que me assusta. Meu Deus, não deixe que a batalha termine assim… – rezo em pensamento, engolindo o nó que teima em voltar para a minha garganta. Enquanto meus olhos se fecham em oração, sinto um toque no braço: Sombra encostou a pata em mim, exigindo minha atenção. Quando abro os olhos, vejo que Diego também abriu os dele. Dois círculos brilhantes na penumbra, encarando-me com uma intensidade que quase dói.

– Filho...? – murmuro quase sem som. Diego continua me olhando, e naquele olhar há um turbilhão que conheço tão bem. Medo, dor, amor, tudo misturado. Ele não consegue falar, nunca conseguiu. Mas eu entendo perfeitamente o que ele quer me dizer agora, porque meu coração parece sintonizado ao dele. “Pai, estou com medo.” É isso que vejo no tremor de suas pupilas. “Não quero te deixar. Não quero deixar mamãe. Não quero deixar Sombra.” Uma lágrima silenciosa escapa do canto de seu olho esquerdo.

Eu seguro sua mão, com todo cuidado, e levo ao meu rosto para que ele sinta minha presença. Está gelada, tão pequena dentro da minha. Sombra se levanta e coloca as duas patas dianteiras sobre a beirada da cama, aproximando o focinho do rosto de Diego. O cão solta um ganido baixo, quase um choro contido. Meu filho move ligeiramente a cabeça, virando o olhar em direção a ele. Em câmera lenta, vejo um diálogo mudo acontecer: os olhos de Diego nos olhos de Sombra. É como se um dissesse ao outro: “Fique firme. Aguente comigo.” Eles já passaram por tantas tempestades juntos… Por um momento, eu poderia jurar que Sombra está chorando também – seu focinho treme, e ele ofega como quem segura um soluço.

A cena parte meu coração e ao mesmo tempo me dá forças. Com a mão livre, faço um carinho em Diego, afagando seus cabelos úmidos de suor. Estamos aqui, filho. Eu e seu irmão de patas, nós estamos aqui. Sombra desce da cama e se ajeita de novo ao lado, pressionando o corpo contra a grade, o mais perto que consegue chegar. Vejo Diego piscar lentamente, aquele piscar demorado que ele faz quando quer dizer “sim”. Ele entendeu. Ele sempre entende, de algum jeito, tudo que dizemos a ele com o coração.

Os próximos minutos se arrastam. Eu canto baixinho uma cantiga que costumava ninar Diego quando bebê, e que muitas noites acalmou a mim mesmo mais do que a ele. Minha voz sai rouca, quase um sussurro: “Dorme, meu pequeno… a noite já vem… teu pai tá aqui, teu amigo também…” Sombra deita a cabeça sobre os pés de Diego e cerra os olhos como se também sentisse cada palavra. Estamos os três imersos em uma bolha de quietude e aflição. Lá fora, a vida segue – ouço ao longe um ou outro carro passando, cães de vizinhos latindo para a escuridão. Aqui dentro, travamos essa batalha invisível: a briga contra o medo, contra a dor, contra a possível despedida.

Lembro-me de tantas outras vezes em que vi meu filho lutar. Lembro do dia em que o vi esforçando-se para fechar a mão pela primeira vez na fisioterapia – meu Deus, quanta determinação naquele gesto mínimo. Lembro da tarde inesquecível em que um som nasceu de sua garganta e nos fez chorar de alegria, enquanto Sombra abanava o rabo como se soubesse que aquele murmúrio rouco era nosso “mamãe” e “papai” dito de outro jeito. E lembro, como se fosse hoje, daquele primeiro sorriso no posto de gasolina, quando um cachorro de rua e um bebê preso em seu mundo silencioso se encontraram e, num segundo, tudo mudou. Diego sempre lutou, desde o primeiro dia. Lutou para provar que estava ali, consciente, apesar do diagnóstico. Lutou para nos dar um sorriso, um movimento, um som – presentes tão simples, mas que ele conquistou como quem conquista o topo de uma montanha. E Sombra lutou junto com ele a cada passo, ou melhor, a cada centímetro percorrido.

Agora, sentindo o aperto da mão de Diego suavizar um pouco dentro da minha, encaro novamente aqueles olhinhos semicerrados. Não desista agora, campeão. Eu não falo, mas penso com toda a força, esperando que ele me escute com o coração. Ele já fez coisas impossíveis antes… quem sabe amanhã de manhã ele acorde melhor, quem sabe essa febre finalmente vá embora e ele possa sorrir de novo para nós? Preciso acreditar nisso. Preciso acreditar que há mais uma vitória silenciosa por vir.

Minhas lágrimas rolam sem que eu consiga contê-las. Algumas caem na fronha branca ao lado do rostinho de Diego. Sombra levanta a cabeça ao sentir meu choro e imediatamente se aproxima de mim, encostando o focinho em meu joelho como se dissesse: “Está tudo bem. Deixa sair.” Eu solto um soluço baixo, com cuidado para não assustar meu filho. Passo a manga da camisa pelos olhos, tentando me recompor. Aprendi a ser forte por Diego; sempre evitei que ele me visse chorando. Mas esta noite... esta noite é difícil ser forte. O medo de perdê-lo está me despedaçando por dentro.

Uma pequena mão toca meu punho. Diego me tocou! Seus dedos fracos apertam de leve meu braço, num gesto que claramente quer chamar minha atenção. Olho imediatamente para ele. Diego faz um esforço tremendo – vejo o músculo de sua mandíbula contrair, a garganta mexer – e então um som fraco escapa de seus lábios entreabertos: “Ah…” Fico estático. Ele está tentando falar.

Filho? – pergunto, quase em reflexo, como se ele pudesse responder.

Diego solta outro som, algo entre um gemido e uma sílaba. Seus olhos se fixam em mim intensamente, depois deslizam para Sombra. Entendo. Ele está preocupado conosco. Ele está percebendo o meu sofrimento e o de Sombra, e quer nos consolar! Meu menino, mesmo tão frágil, está tentando ser forte por nós…

Shhh… tá tudo bem, meu amor. – sussurro, aproximando meu rosto do dele. – Não se esforce, está tudo bem.

Meu filho continua me olhando, agora com uma expressão diferente. Ainda há dor, ainda há medo, mas há também uma espécie de paz surgindo ali. É sutil, mas reconheço esse brilho – é o mesmo que vi quando Sombra lambeu seus cabelos naquelas noites difíceis; o mesmo brilho resignado e sábio que diz “não importa o que aconteça, estamos juntos”. Ele para de tentar emitir sons e pisca devagar, duas vezes. Nosso código para “eu te amo”. Sinto meu coração se aquecer e desmoronar ao mesmo tempo.

Também te amo, filho. – Respondo baixinho, beijando sua testa úmida.

Sombra, como se entendesse a troca, levanta-se novamente e lambe de leve a bochecha de Diego. O menino fecha os olhos, exausto. Sua respiração parece ficar mais calma após esse esforço. Aos poucos, ele retorna ao sono, ainda segurando meu dedo com seus dedinhos finos. Sombra deita-se de novo, mas dessa vez mantém a cabeça pertinho do peito de Diego, como se escutasse seu coração. Fico observando os dois em silêncio. O aperto no meu peito vai cedendo lugar a uma sensação morna de gratidão.

Não sei o que o dia de amanhã nos reserva. Talvez a febre ceda de vez e possamos comemorar juntos mais uma vitória. Talvez… talvez não, e tenhamos de enfrentar a mais cruel das despedidas. Tento afastar esse pensamento, mas ele ronda minha mente como um corvo. E se…? Não. Não vou pensar nisso agora. Prefiro me concentrar neste momento: meu filho descansando tranquilo, sentindo-se amado e protegido. Não há dor maior para um pai do que imaginar seu filho com medo ou sofrendo. Pelo menos neste instante Diego sabe que estamos aqui. Ele sente nosso amor envolvendo-o como um cobertor.

Enquanto a primeira claridade da aurora começa a filtrar pela janela, fecho os olhos por alguns segundos e faço uma prece silenciosa. Agradeço por mais esta noite juntos. Agradeço pelo milagre quotidiano que é ter Diego em nossas vidas e por termos tido Sombra em nosso caminho. Peço forças para encarar o que vier, e peço – do fundo da alma – que o que vier seja misericordioso.

Quando abro os olhos novamente, percebo que cochilei por alguns minutos. O céu lá fora está tingido de um cinza azulado, anunciando que em breve o sol vai nascer. Olho imediatamente para Diego: ele permanece sereno, respirando ritmada e silenciosamente. Levo a mão ao seu pescoço para sentir a temperatura – está normal! Meu coração dá um salto. A febre que o torturava se foi. Mal posso acreditar; depois de semanas de idas e vindas, de tantos remédios, ela se foi assim, de repente, no sossego desta madrugada. Sombra parece perceber também – ele se espreguiça e levanta as orelhas, farejando o ar próximo ao rosto de Diego. Talvez sinta que seu cheiro está diferente, mais saudável. O cão olha para mim e abano a cabeça afirmativamente, com um sorriso fraco nos lábios: acho que ele vai ficar bem. Sombra responde com o gesto mais improvável: solta um pequeno uivo, baixinho, quase um canto contido, e eu quase rio – é como se ele estivesse agradecendo aos céus.

As lágrimas que correm agora pelo meu rosto são de alívio. Em silêncio, me levanto e envolvo Sombra num abraço, passando os braços pelo seu pescoço forte. Ele lambe meu queixo e posso jurar que há gratidão em seus olhos. — Obrigado… – balbucio, sem conseguir terminar a frase. Não sei ao certo a quem estou agradecendo – a Deus, ao universo, ou a este cão maravilhoso… provavelmente a todos.

Olho para meu filho que dorme e, pela primeira vez em muitos dias, permito-me acreditar que vai ficar tudo bem. Ainda teremos desafios, eu sei. A condição de Diego não desaparecerá magicamente. Mas cada dia que ele permanece conosco é uma vitória. Cada sorriso, cada som, cada olhar trocado é um presente imensurável. E Sombra estará conosco para enfrentar o que vier, disso eu não duvido. Juntos, já vencemos tantas batalhas silenciosas que perdi a conta. Juntos, calamos as vozes do desespero e acendemos a chama da esperança quando tudo escurecia.

Antes de o sol nascer completamente, Marisa aparece na porta do quarto, atraída talvez pelo mesmo instinto que me mantém de pé. Ela olha a cena – eu sentado ao lado da cama, segurando a mão de nosso filho adormecido, e Sombra aninhado aos pés dele. Ela sorri com os olhos marejados: há compreensão imediata. Sem que eu diga nada, ela entende que atravessamos mais uma noite difícil e que, de algum modo, sobrevivemos à tempestade. Aproxima-se em silêncio e coloca a mão em meu ombro. Nos comunicamos num único olhar cheio de amor e exaustão.

A febre passou, – sussurro, e vejo sua expressão se iluminar num alívio contido. Marisa faz um gesto de oração com as mãos e suspira um “graças a Deus” mudo. Em seguida, ela se inclina e deposita um beijo suave no rosto de Diego, depois se abaixa para afagar Sombra. O cão fecha os olhos, apreciando o carinho, e o rabo bate de leve contra o chão – finalmente ele relaxa.

Nós três ficamos ali, velando o restante do sono de Diego até que o sol enfim desponta, inundando o quarto com uma claridade dourada. O novo dia traz consigo a promessa de continuidade, de mais vida. E eu, que algumas horas atrás estava tomado pelo pavor, agora me sinto leve, quase flutuando na gratidão.

Enquanto Marisa vai até a cozinha preparar um café forte, eu permaneço com meu filho e seu guardião. Observo o rosto de Diego sob a luz da manhã – há uma calma angelical ali. Em seus olhos semiabertos, que por vezes refletem a luz do sol nascente, não vejo mais a agonia da madrugada. Vejo apenas paz. Sombra aninha a cabeça no colo do menino, fechando os olhos também, enfim descansando. Passo a mão pelos cabelos de meu filho e sussurro: — Você venceu mais essa, meu amor. Dentro de mim, completo a frase: E nós vencemos com você.

Porque todas as brigas travadas dentro do olhar de Diego foram também nossas brigas. Cada dor que ele silenciosamente carregou, carregamos juntos – eu, Marisa e Sombra – como um exército de três guerreiros unidos por um laço indestrutível. E a cada pequena grande vitória dele, nós também triunfamos. Aprendi, nesses anos, que a verdadeira força não está nos músculos ou nas palavras eloquentes. Está nessa capacidade de resistir em silêncio, de lutar batalhas invisíveis por amor. Meu filho me ensinou isso. Sombra me ensinou isso. Dois professores improváveis, um menino que não fala e um cão que não sabe ler – mas que gravaram as lições mais importantes diretamente em meu coração.

Um suspiro longo escapa dos meus lábios, carregando embora a tensão acumulada. Olho pela janela o céu que finalmente é azul brilhante, sem nenhuma sombra de dúvida ou medo. Sombra ergue as orelhas ao ouvir meu suspiro e me encara, inclinando ligeiramente a cabeça. Dou-lhe um sorriso e um leve aceno. Está tudo bem agora. Pelo menos por hoje, está tudo bem.

Diego continua dormindo calmamente, e decido que não vou acordá-lo tão cedo. Ele merece esse descanso pós-batalha. E eu mereço este momento de quietude para apreciar a benção que é poder abraçá-lo de novo quando ele despertar.

No canto do quarto, há uma cadeira de balanço antiga e uma manta. Puxo a manta sobre meus ombros e me recosto ali, sem tirar os olhos do meu pequeno guerreiro e seu guardião peludo. Penso em todas as histórias que vivemos e que um dia contaremos – algumas já estão escritas no blog e talvez um dia num livro; outras vivem apenas em nossa memória. Penso nas cicatrizes invisíveis que carregamos e em como elas não nos enfraqueceram, mas nos tornaram mais humanos. Penso, acima de tudo, em como o amor transforma: transformou a dor em propósito, a perda em união, o silêncio em linguagem.

Hoje, mais do que nunca, sinto orgulho de Diego. Ele não ganhou medalhas, não quebrou recordes, não proferiu discursos – mas venceu batalhas diárias que ninguém viu, exceto nós. Meu filho é um herói sem manchetes de jornal. Seu nome talvez nunca esteja nos livros de história, mas estará para sempre escrito no livro da nossa família, nas páginas do Pastor Alemão Sombra, nos corações de quem ouviu sua história e se emocionou. E quando um dia eu tiver que me despedir dele (afinal, isso faz parte da ordem natural que cedo ou tarde virá), sei que Sombra e eu carregaremos adiante essa chama. Não deixaremos que sua luta tenha sido em vão. Contaremos e recontaremos como um menino sem voz e um cão sem lar ensinaram ao mundo o verdadeiro significado de amar.

Sinto meus olhos pesarem um pouco – o cansaço finalmente querendo cobrar seu preço – mas antes de adormecer por uns instantes, lanço um último olhar a Diego. Para minha surpresa, ele também me olha: desperto, quietinho, ele me observa da cama. Há um brilho cálido em seus olhos castanhos. Nos encaramos em silêncio por alguns segundos que valem uma eternidade. Não preciso perguntar como ele está; seu olhar me diz tudo. Estou bem, papai. Conseguimos. Estou aqui. Sombra levanta a cabeça ao perceber que Diego acordou, e imediatamente começa a abanar o rabo, contente. Ele se apressa em dar bom dia ao amigo, lambendo-lhe a mão. Diego esboça algo parecido com um sorriso – aquele mesmo sorriso sereno, quase imperceptível, que aprendi a decifrar. É felicidade. Pura e simples felicidade.

Engulo o choro que ameaça vir novamente, mas dessa vez é um choro doce, não amargo. Levanto da cadeira e me aproximo, inclinando-me sobre a cama para envolver meu menino num abraço suave, com Sombra aninhado junto. Estamos os três abraçados, e por um instante mágico, sinto que nada de ruim pode nos atingir. É como estar num refúgio impenetrável erguido pelo amor.

Bom dia, meu campeão, – sussurro ao ouvido de Diego, enquanto ele encosta a cabecinha em meu ombro. Sombra solta um latidinho baixo, como quem responde ao cumprimento. – Bom dia pra você também, meu amigo, – digo, afagando a nuca de Sombra. Não consigo conter um riso breve ao imaginar a cena vista de fora: um homem adulto conversando com um cão e um menino que não respondem com palavras. Mas aqui, as palavras nunca foram necessárias. Temos nossas próprias maneiras de dialogar.

Ficamos assim por longos minutos, até que Marisa retorna com o café e nos encontra juntos, já despertos e unidos. Ela se junta ao abraço, e agora somos quatro – uma família completa em torno da nossa razão de viver. Não precisamos dizer nada. O olhar que trocamos entre nós brilha com aquela compreensão silenciosa de quem sabe que ganhou mais um dia. Mais um dia de vida, de luta e de amor.

Enquanto o sol da manhã enfim ilumina todo o quarto, eu me lembro da frase que escrevi certa vez no diário de Sombra, inspirada pelo que vivemos: “Algumas guerras a gente vence simplesmente por não desistir de amar.” Sorrio internamente, certo de que é verdade. As brigas mais duras que enfrentamos – aquelas brigas de dentro do olhar – foram vencidas porque nunca desistimos um do outro. Diego nunca desistiu de nós, nem nós dele. E Sombra… ah, Sombra jamais desistiu de nenhum de nós.

Vamos viver, – declaro em voz baixa, como um brado de vitória sussurrado, beijando a testa de meu filho. Marisa assente com olhos marejados, Sombra abana o rabo.

Vamos viver. Um dia de cada vez, juntos, enquanto o destino nos permitir. E quando as próximas batalhas chegarem – porque sabemos que virão – estaremos prontos. Não importa quão silenciosas ou invisíveis sejam, lutaremos lado a lado, lendo a coragem nos olhos uns dos outros. E, aconteça o que acontecer, o amor que nos une sempre sairá vitorioso dessas brigas silenciosas que travamos dentro do olhar.


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