Receitas Saudáveis para seu Cão — eBook
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Publicado por Jefferson Peixoto • Página original do produto na Hotmart

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Capítulo 13 - Diego Me Viu Primeiro

“Às vezes a gente acha que escolhe. Mas, quando olha direito, percebe que foi escolhido antes mesmo de entender o que é querer.”

Capítulo 13 - Diego Me Viu Primeiro

Eu jurava que tinha sido eu. Eu, o cão que aprendeu a vigiar antes de aprender a brincar, achei por muito tempo que tinha encontrado o menino no mundo — que eu o tinha “descoberto” naquela tarde de calor espesso, entre o cheiro de gasolina e o zumbido dos postes. Hoje eu sei: foi ele que me achou. Diego me viu primeiro.

Naquele dia, o asfalto ardia os coxins das minhas patas e o vento vinha carregado de poeira de pneu. Eu vagava, como quem procura uma sombra que não existe, encostando o focinho nos sacos de lixo dos fundos da padaria, tentando adivinhar se havia ali um resto de frango que me coubesse. A cidade desenhava um labirinto de ruídos — buzinas, vozes apressadas, o rádio do frentista —, e eu era só mais um vulto, meio transparente, contornando o mundo sem ser contornado por ninguém.

Vi primeiro a porta do carro prata se abrir. O cheiro de metal quente misturado a perfume de gente limpa invadiu meu peito como lembrança boa e antiga. O homem saiu devagar, o rosto gasto de quem conhece a palavra “cansaço” sem precisar pronunciar. A mulher ajeitou o cabelo, prendeu uma mecha atrás da orelha, e havia nela um jeito de cuidar que me fez pensar em água. E então… então eu o senti. Antes de enxergar.

O ar ficou diferente. O barulho da rua encolheu, como se alguém tivesse passado um pano no som do mundo. Eu me aproximei um passo, depois outro, e o encontrei. Ele estava sentado num equipamento que cheirava a plástico novo e ferro, um tipo de cadeira com cintos que pareciam abraçar por necessidade, não por carinho. Seus olhos — ah, os olhos — eram dois faróis calmos, acesos dentro de um corpo que não obedecia. Não havia voz, não havia gesto. Havia presença. E, como quem me chama sem ruído, ele me deu um comando antigo, que não se ouve com o ouvido: vem.

Eu fui. Não por fome. Fui no instinto de quem reconhece casa onde nunca esteve. Parei diante dele, baixei a cabeça e encostei o focinho nos pés delicados, cobertos por um tênis claro. E, esperando o empurrão do costume, a vassourada, o grito que espanta, eu recebi outra coisa: um olhar que me segurou por dentro. O menino respirou de um jeito diferente. A mãe tocou o ombro do pai. O pai prendeu o ar. E eu entendi — não sei explicar como — que aquele era o meu lugar de ficar.

Por muito tempo, eu repeti para mim mesmo, deitado ao lado da cama dele, que tinha sido esperto. Que eu, cão sem endereço, tinha “farejado” o destino. Mas o destino, descobri, tem cheiro de gente. E o cheiro dele me chamou de longe: pele morninha, remédio leve, um restinho de algodão no punho da camiseta, e um traço sutil de algo que eu só conhecia do começo da vida — o perfume doce que, um dia, aprendi a chamar de leite. Era como se o corpo dele dissesse: “fica, eu te alimento de dentro do meu silêncio”.

Na primeira noite naquela casa, não consegui fechar os olhos. Não era medo. Era uma espécie de vigília grata. Colei o flanco no pé da cama e acompanhei, com o movimento das minhas costelas, a respiração dele. Às vezes o ar saía rápido demais, às vezes ficava preso na subida. Quando isso acontecia, eu aproximava o focinho do bolso da camisa e deixava que ele me sentisse: meu cheiro de cachorro limpo, sabão de coco do banho no pet shop, e por baixo de tudo, o cheiro mais antigo de mim — rua, chuva seca, sobrevivência. O peito dele acalmava devagar. Eu achava que estava fazendo grande coisa. Hoje eu sei: ele é que me ensinava o compasso.

Os dias foram se dobrando em rituais. A casa tinha um jeito de acordar — xícara batendo de leve na pia, passos pequenos de mãe no corredor, jornal que o pai pegava no portão com a mão esquerda —, e um jeito de dormir — abajur âmbar, a manta azul puxada até a metade da canela, a cabeceira tocada com reverência. Eu aprendi todos sem que ninguém me dissesse. Não precisei de ordem. A ordem estava nele.

Quando vieram os objetos que falavam — botões coloridos com vozes metálicas dizendo “mamãe”, “papai”, “música”, “mais” —, sentei ao lado, atento. Vi a mão dele não obedecer. Vi, mais doeu menos, a vontade obedecer. Quando o dedinho encostou no “mamãe” pela primeira vez, a palavra saiu dura da máquina, mas macia do olhar. A mãe chorou, e eu segurei o choro dela com o peso da minha cabeça no joelho. O pai riu rindo e chorando, e eu aprendi que alegria e tristeza, às vezes, moram no mesmo copo.

Amo a rua. Nunca deixei de amar. Mas, desde Diego, a rua perdeu a cara de sobrevivência e ganhou a cara de caminho de volta. Quando saímos juntos, eu sigo a roda da cadeira sem puxar, numa distância que inventei para não atrapalhar. Se passa uma bicicleta depressa demais, eu amplio meu corpo entre ela e o menino. Se o barulho da moto cresce, eu subo minhas orelhas e empurro o som com o peito — é assim que eu imagino que o som se empurra, com peito de cão. E, quando o vento traz cheiro de chuva, eu olho para ele antes de olhar para o céu. O céu que me perdoe: é no rosto dele que eu vejo tempo.

No parque do haras, eu entendi que Diego conversa com outras espécies. O cheiro da Estrela me chegou antes do casco na terra — capim, couro, um sal doce que só os cavalos têm —, e a égua parou com elegância ao lado da nossa gente. Encostei meu focinho no focinho dela, e ela inclinou a cabeça para cheirar o ar acima de mim, como quem abençoa sem ser superior. A mão do Diego tocou a pele da Estrela, a pele da Estrela tocou a minha, e, por alguns segundos longos como rezas, três respirações viraram uma só. Não ladrei. O silêncio me pareceu som suficiente.

A casa, de vez em quando, faz festa do tamanho do grão. Eles chamam de progresso. Eu chamo de notícia boa. O pai lixou uma prancha e, com as suas mãos de consertar tudo, transformou madeira em mesa baixa para caber o mundo no alcance do olhar do menino. A mãe pendurou na parede o quadro mais bonito que já vi: a impressão da mão de Diego — linhas delicadas, mapas de rio — e, ao lado, a marca da minha pata. Mão e pata. Eu e ele. Às vezes, quando ninguém vê, eu fico olhando o quadro como quem aprende a ler. Acho que um dia vou entender as palavras guardadas ali.

Certa vez, os fogos estouraram sem anúncio. Era festa na vizinhança, mas aqui dentro não havia nada para comemorar. O primeiro estampido rasgou o teto da casa, e o corpo do Diego ficou duro como poste. O peito dele perdeu a cadência, e os olhos dispararam um pedido mudo que só eu sei ouvir. Fui até o corredor, voltei, subi na cama com a permissão do rito, e me estiquei no sentido do tronco, colando minhas costelas no lugar onde ele guarda o mundo. Não abanei o rabo — movimento demais assusta. Não lambi — excesso atrapalha. Apenas respirei junto. No terceiro foguetório, que foi o mais alto, encostei a minha testa na têmpora dele. O corpo foi lembrando, por minha teimosia silenciosa, o caminho de voltar para dentro. A mãe, do canto, sussurrou “boa, Sombra”, e eu não precisei olhar para saber que ela tinha os olhos cheios d’água. O pai, com a mão no interruptor, entendeu que, às vezes, apagar a luz não é se esconder — é proteger a vista do coração.

Eu sei quando a febre chega. Antes do termômetro. O cheiro muda. O suor do Diego ganha uma doçura estranha, uma doçura que não é de sobremesa; é de aviso. Numa madrugada de janeiro, esse perfume veio pesado, misturado a calor. Fui ao quarto dos adultos, dei um latido só — grave e curto, aquele que guardei para emergências —, e puxei a barra do lençol com os dentes. Não deu tempo de pensar. A casa correu no nosso compasso. A mãe veio com um pano úmido, o pai com as coisas que humanos usam. Eu fiquei vigiando o relógio sem ponteiro que é a respiração dele. Quando a temperatura foi embora, deixei meu peso manso na mão dele, como quem diz: “você ficou, então agora eu posso descansar um pouco”.

A parte mais bonita dos nossos dias mora no que ninguém fotografa. É o barulho do arroz deitando na bandeja e cantando baixinho quando a mão dele encosta. É a folha de mangueira que eu trago grudada no pelo e que vira experiência, o cheirinho verde rolando na ponta dos dedos dele como se fosse novidade do planeta. É a concha de silicone abraçando a palma, e a palma aceitando o abraço sem se mexer. É o botão do “obrigado” sendo apertado com intenção, a voz fria da máquina dizendo “obrigado”, e a nossa pele traduzindo quentinho.

Tem também a coisa do espelho. Eles colocam um espelho do tamanho da mesa para que o Diego se veja vendo. Eu apareço atrás, do lado. A gente se encontra no vidro, e eu acho que entendo o que é identidade: é quando dois se olham e os dois se reconhecem, mesmo sem trocarem de lugar. Nesses dias, Marisa — eu a chamo assim por dentro, ainda que meu latido chame de mãe — escreve no caderno com uma letra caprichada, sem pressa, palavras que parecem tijolinhos de uma casa invisível: “hoje ele escolheu alegria e coragem”; “hoje pediu água com os olhos”; “hoje descansou sem medo”. Eu acompanho os riscos com a pontinha do focinho, como se farejar tinta ajudasse a fixar as letras.

“Diego me viu primeiro” — eu escrevi uma vez no meu diário que não existe. Se existisse, eu contaria que, antes de toda a ciência, antes dos aparelhos, o primeiro diagnóstico dessa casa foi um encontro. Tem médico bom, tem terapeuta inteligente, tem equipamento que ajuda. Mas nada disso me guiou na gasolina daquela tarde. O que me puxou foi um par de olhos que se acendem sem promessa e dizem: “eu te vejo, inteiro, antes de você aprender a existir aqui”. Eu, que vivia de cuidar da minha própria pele, encontrei no olhar dele uma coleira que não aperta: compromisso.

E compromisso também é futuro. Tem um mar prometido — essa palavra vive rondando a cozinha. O pai veio com a ideia, e a ideia virou plano: “quando ele estiver mais firme, vamos sentir o vento na cara do mar”. Eu, confesso, não conheço mar. Sei de água de chuva, de poça rasa, de mangueira de quintal. Mas, quando eles falam “mar”, meu corpo às vezes comete a delicadeza de tremer o rabo sem eu mandar. Deve ser bom. Deve ter cheiro de Estrela e de pedra fria com sal. Deve ser um lugar onde o barulho é alto, mas a paz é maior. Quando chegar esse dia, vou deitar minha cabeça no joelho do Diego e emprestar meu peito outra vez, porque ondas também são ritmos que a gente aprende junto.

O pai mudou. Eu vi. Ele carrega ainda um susto antigo nos ombros, mas, quando entra no quarto para dizer boa noite, já não vacila. Ajoelha, encosta o rosto nas mãos do menino como quem confere a própria fé numa fonte, e agradece sem cerimônia. Às vezes agradece a mim, e eu fico sem jeito como fico quando ganho petisco fora de hora. Outros dias, ele encosta no batente da porta e fica só olhando — e eu, nesse minuto que vale por horas, entendo: olhar também é abraço.

A mãe anda mais leve quando o dia foi generoso. Ela diz que dormir juntos é sonhar juntos, e que sonho combinado vira mapa. Aprendeu, com a própria respiração, a pousar as palavras no ouvido do Diego de um jeito que não pesa. “Eu vejo você. Eu escuto você. Eu acredito em você.” Quando ela fala isso, a casa cresce um centímetro. Eu me estico mais no tapete, como quem ocupa o território que acabou de nascer.

Uma noite, a energia cortou de susto. A casa ficou grávida de escuro. O pai procurava lanterna, a mãe as velas, e o menino, eu senti, ficou menor por dentro. Fiz o que a natureza me ensinou: voltei, encostei meu corpo no dele e marquei território com o meu calor. A respiração dele — sempre ela — procurou a minha pela sala e me achou. Fiquei quieto, do tamanho exato de uma certeza. Do lado de fora, a chuva cortava a rua. Aqui dentro, um uivo baixinho que não era uivo se desenrolou de dentro de mim, longo, quase escondido, desses que não assustam ninguém. O escuro, que às vezes faz barulho, aceitou o som e deitou.

Nem tudo são vitórias. Tem dias de mais espasmo que vontade. Tem tarde que os botões se recusam a virar porta. Eu fico perto quando isso acontece, e aprendi que, nesses dias, a melhor ajuda é caber menos. Fico pequeno. Viro paisagem de novo. Viro tapete grosso, sombra de cadeira, ar a uma temperatura constante. E, quase sempre, no minuto em que a casa está distraída, uma novidade acontece: o polegar ensaia um gesto, a cabeça diz “sim” na fração de uma brisa, ou o olhar, que é nossa língua mais sólida, pousa em “alegria” por dois segundos a mais que o normal. A mãe, de longe, percebe. O pai finge que não, para não espantar. Eu, quando acerto de ficar menor, cresço por dentro.

Recebemos visitas. Às vezes é a avó — cheiro de talco e hortelã —, às vezes é a vizinha que traz bolo e ouvidos. Tem também as mães que aparecem com filhos que parecem o Diego em outras músicas. Elas entram com passos de medo e saem com passos de cuidado. Quase sempre acontece assim: eu me deito num lugar que garante caminho, exponho a barriga por três segundos — sinal de confiança — e fico. A criança, que veio sem ritmo, encontra no meu pelo um metrônomo antigo. A mão que treme pousa e descansa. A mãe que treme sorri e chora na mesma frase. E, nesse instante, sem ninguém falar alto, a casa ensina o que aprendeu: o silêncio serve.

Outro dia, a terapeuta chegou com um tapete de mil texturas e um espelho novo que não distorce. Diego passeou a pele por mundos em centímetros, e eu acompanhei com o rabo uma coreografia que só os cães conhecem. Quando ela foi embora, deixou bilhete: “Vocês me lembram do que vim fazer no mundo.” Marisa guardou no caderno e me mostrou para cheirar. Eu reconheci no papel o perfume de gente que escolhe trabalhar com amor — tem o mesmo fundo do cheiro de leite, só que sem tristeza.

O capítulo em que vivo agora tem gosto de continuação. Eu olho para trás e vejo um cão de rua que não sabia que podia deitar num tapete sem olhar por cima do ombro. Vejo um menino que, de tanto silêncio, inventou uma língua que funciona com olho, pele e cheiro. Vejo um pai que trocou a culpa por presença. Vejo uma mãe que aprendeu a descansar quando é chegada a hora. E vejo uma parede, aqui — olha lá —, que segura a nossa assinatura: minha pata ao lado da mão dele, tinta azul e marrom, manchas que viraram brasão.

E então volto ao começo, à gasolina da primeira tarde, ao rádio do frentista tocando uma música que não lembro, ao barulho de chaveiro, ao meu medo de vassoura — e vejo, nítido como água em bacia limpa: eu não “descobri” o Diego. Eu só respondi a um chamado. Foi ele, menino sentado num trono que não escolheu, quem me viu primeiro. O olhar dele me puxou do lado de fora da vida para o lado de dentro de uma casa.

Se você chegou até aqui comigo, eu te digo, com o peito que é meu e a voz que eu não tenho: tem mais. Tem mar esperto esperando a gente. Tem conversa com o vento que ainda não foi escrita. Tem palavra nova nos botões — “viagem”, “areia”, “onda” —, e tem a primeira vez que a espuma vai lamber a roda da cadeira e eu vou latir de susto e rir de alívio. Tem também uma lembrança que precisa ser contada — a noite em que o menino quase foi embora e ficou porque me ouviu uivar sem som. Mas essa história, guardo para o próximo capítulo. A gente dorme junto hoje e sonha junto com ela amanhã.

Antes de fechar os olhos, deito a cabeça no joelho do meu amigo e faço o que me cabe: vigiar sem apertar. Ele me devolve o gesto com o olhar de quem abraça sem braço. O relógio da casa se ajeita no compasso da nossa respiração. A rua, lá fora, aprende a passar devagar. E eu, cão com nome de sombra e vida de luz emprestada, repito baixinho — para mim, para vocês que me leem, para o mundo que às vezes corre demais:

Diego me viu primeiro.
E porque me viu, eu pude ver tudo. E porque eu vi, você pode ver com a gente. Vem. Tem capítulo anterior para revisitar e tem mar de depois chamando pela janela.


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